quinta-feira, dezembro 30, 2010

QUEBRANDO O ENCANTO - CONTO

QUEBRANDO O ENCANTO

Banhado pelas melódicas brisas do mar, Anselmo, sentado em seu banco particular na porta de casa, observava os pontos luminosos dos barcos sumindo no horizonte das águas escuras. As estrelas estavam fracas e apenas a lua iluminava aquela praia deserta que o professor aposentado adotou como seu lar há mais de três anos quando seu caçula casou. Sua esposa, que agora jaz debaixo da terra, aprovaria a solidão feliz do marido que já viveu muito e agora só quer um tempo sozinho, longe do barulho e infortúnio da capital. Ali, naquele canto afastado da civilização agitada, ele desfrutava todas as noites daquela paisagem de barcos de pesca, nuvens cinzentas e de ondas barulhentas que explodiam carinhosas na areia. Vez por outra um casal de mãos dadas ou um pequeno grupo de crianças jogando bola apareciam para dar mais vida àquele cenário de paz. Mas essa rotina agradável – e para quem ver de fora um tanto monótona, talvez – tomaria um rumo diferente esta noite.

Talvez estivesse entretido com seus pensamentos e por isso nem a percebeu saindo das ondas, mas ela provavelmente veio do mar, por mais estranho que isso pudesse parecer. Não havia ninguém àquela hora na praia além dele. Anselmo só notou aquela jovem se aproximando quando ela já estava em sua direção como se atraída por algum feitiço irresistível. Anselmo preparou-se para receber tão jovem moça que poderia estar perdida e precisando de uma informação ou até uma ligação para seus pais. Qual não foi sua surpresa quando percebeu que ela estava completamente nua! Seria uma maluca? Será que sofreu algum tipo de abuso? Anselmo adiantou-se em correr para dentro de casa e buscar uma camisola que sua neta havia esquecido nas últimas férias. Voltou para frente de casa e a moça já estava lá, parada e sem demonstrar qualquer pudor por estar como veio ao mundo como se andar desse jeito fosse a coisa mais natural. Mesmo assim Anselmo como bom cavalheiro que era lhe ofereceu a camisola de sua neta. A moça, calada, pareceu não compreender o que era aquilo, mas em seguida, como por instinto, vestiu calmamente. “Aconteceu alguma coisa?”, foi tudo que Anselmo conseguiu dizer mesmo tento milhões de questionamentos latejando em sua cabeça. “Preciso de ajuda.”, as palavras dela fluíram robóticas. “Em que posso lhe ajudar, moça? Quer fazer uma ligação? Você já jantou? Quer que eu chame a polícia?”. “Cure minha maldição.”. Ao ouvir essa frase, Anselmo teve certeza de que só poderia se tratar de uma louca, mas como bom cristão, estava disposto a ajudá-la em qualquer coisa que fosse. Convidou-a para entrar, o que ela fez sem demonstrar qualquer receio. Dentro de casa ele lhe ofereceu comida, ela disse que já havia se alimentado, só queria mesmo que ele a ajudasse a curar sua maldição. “Sim, moça, então diga que maldição é essa?”, perguntou Anselmo, claro que não acreditava em nenhum dos delírios da louca, mas se quisesse ajudá-la, o que de fato queria, deveria adentrar no mundo dela para, quem sabe, extrair informações sobre onde morava e o telefone para falar com seus pais. “Sou um monstro e preciso me libertar!”. Monstro? Ela era linda, morena parecendo uma índia, corpo belíssimo e andar sensual mesmo que um tanto mecânico. Mas insistiu que era um monstro horrível, mas que nem sempre fora assim. Ela disse que seu nome era Anaiá e que nasceu em um reino no fundo do mar e por ser a criatura mais adorável do reino foi desposada pelo príncipe que enamorou com sua beleza inigualável logo na primeira vez que a viu. Era para ser tudo perfeito em suas vidas, no entanto, uma rainha de outro reino que já havia oferecido sua filha em casamento para o príncipe, ofendida com a escolha do jovem recorreu a seus conhecimentos místicos, pois era filha de uma feiticeira poderosa e sabia de cor todas as fórmulas mágicas que sua mãe a ensinou. Com isso, Anaiá acordou transformada em uma criatura horrível e teve que fugir do reino para não ser tomada por um demônio. E desde desse dia ela se transforma em nesse monstro todos os dias quando o sol está dormindo e a escuridão reina soberana. Anselmo permaneceu sentado na poltrona da sala escutando atenciosamente, mas não acreditando em tais alucinações. Era uma louca, precisava de ajuda, só isso. Ela, como se tivesse percebido a incredulidade de seu anfitrião nos olhos, disse “Já que não acredita, vai ver. Esta na hora da transformação. Não se assuste com o que vai v...”. Antes que pudesse terminar a frase seu corpo começou a se contorcer com espasmos violentos que assustaram Anselmo. Ele correu para acudi-la, mas estancou a poucos centímetros da moça que se debatia no chão. Não era mais a moça. Aliás, não era um ser humano. Ele viu tudo, e por mais que não acreditasse seus olhos que já registraram muita coisa nessa longa vida nunca o enganaram. Várias manchas vermelhas como de queimadura apareciam no corpo da jovem, principalmente em suas coxas, aumentando rapidamente numa velocidade que fazia a pele rasgar, e por debaixo, onde deveria aparecer a carne nua das coxas, escamas verdes foram o que Anselmo viu com os olhos esbugalhados e o coração acelerado. Estava espantado demais para tirar qualquer conclusão racional naquele momento. Toda a pele da moça foi rasgada como se fosse um casulo. Os cabelos caíram todos. Sua cabeça tomou uma forma estranha, um pouco puxada pra frente, o nariz sumindo no rosto até sobrarem apenas dois pequenos orifícios. As bochechas cheias de saúde murcharam tornando a face cadavérica e dois cortes profundos se abriram em cada bochecha semelhantes aos encontrados nos peixes. Os dentes pequenos e tortos, mas pontudos como flecha. O busto estava magro com a caixa torácica aparecendo, e os seios perderam sua curva de baixo, transformando-se em pequenos cones escuros e sem mamilos. Mas o mais assustador era sem dúvida o par de olhos. Duas bolas de sangue negro pulando para fora do rosto como se tentassem fugir. Anselmo se afastou com o corpo oscilando de pavor, pronto para fugir desesperado, mas encantado demais como estava não poderia deixar aquele fenômeno sem uma explicação. Foi quando percebeu que o corpo da criatura estava maior e assim como o rosto a carne do corpo também havia murchado deixando os ossos dos braços – que agora pareciam maiores e desproporcionais ao resto do corpo – bruscamente colados à pele verde-musgo melada com um líquido, talvez muco. As pernas estavam cobertas de escamas lembrando uma cauda de peixe e ao lado de cada uma das canelas uma nadadeira larga que se colava ao pé – agora mais lembrando uma garra de dragão. A camisola agora estava aos pedaços, não suportou a metamorfose do corpo.

A criatura se levantou e foi nesse momento que Anselmo se libertou do encanto e disparou em direção a porta de saída. Mas antes que pudesse cruzar a porta e gritar por ajuda, outro encanto o estancou no caminho. Dessa vez era uma melodia agradável que o fez pensar nas maravilhas exóticas e paisagens divinas que podem ser encontradas no fundo do mar, ainda desconhecidas pelo homem. Imaginou-se nadando com peixes coloridos por caminhos escuros iluminados por outras espécies marinhas que emitiam luz como uma cidade à noite. Viu-se cruzando montanhas de continentes perdidos cobertas de algas como túmulos submersos de uma fauna pré-histórica escondida dos pesquisadores humanos. Era lá onde Anselmo gostaria de estar agora, junto com essa bela criatura que canta a melodia das conchas, porém mais doce e infinitamente mais profunda. A música cessou repentinamente e Anselmo sentiu-se tonto. Perdendo as forças jogou-se no sofá. Sentado, arfava devagar admirando monstruosidade maravilhosa daquele animal inclassificável pela ciência humana. Com uma voz grossa formada por milhares de vozes finas como de répteis primitivos tentando falar a língua dos homens, a criatura dos mais belos pesadelos falou “Não vou machucá-lo. Só quero que me ajude!”. Demorou um tempo para que a mente de Anselmo conseguisse processar aquele pedido. E ele se surpreendeu quando sentiu seus lábios se moverem. “Como posso ajudar?”. “Preciso que um homem muito corajoso derrame leite virgem de um seio que amamenta um primogênito em minha cabeça.” Tudo aquilo parecia um grande absurdo, mas Anselmo aceitou dizendo que o encontrasse no dia seguinte naquele mesmo horário na beira do mar. A criatura assentiu agradecida e correu curvada em direção a praia. Era rápida como um veado, mas seu instinto era como de onça, sempre atenta aos perigos do ambiente. A praia estava deserta, o que foi um alivio, pois Anselmo não desejaria que outra pessoa passasse pelo que ele havia acabado de passar. Viu a criatura pular nas ondas e desaparecer no mar.

No dia seguinte Anselmo passou a manhã inteira procurando uma mãe que amamentasse seu primeiro filho. Encontrou em frente a casa de um pescador, uma jovem que amamentava seu neném recém-nascido sentada num banco de tábua podre debaixo de uma árvore pequena. Anselmo perguntou se era o primeiro, com um sorriso a jovem respondeu que sim. Sem hesitar Anselmo fez o pedido. A moça se espantou, o pai dela, um pescador de idade avançada mas forte o suficiente para lhe quebrar os dentes, surgiu nesse momento e veio ter com Anselmo perguntando o que ele estava querendo de verdade. Anselmo se desculpou pela ousadia, mas explicou que estava com um neto doente em casa precisando de um pouco de leite. O pescador disse que levasse seu neto até lá que sua filha teria o maior prazer em amamentá-lo. Anselmo disse que não podia, pois o menino era muito frágil e não podia pegar sol. O pescador desconfiou ainda mais, entretanto, uns poucos minutos de reflexão foi suficiente para ele aceitar. Anselmo pagou com uma nota de cinquenta reais e saiu da casa do pescador com uma panela enferrujada cheia de leite. À noite, esperou Anaiá, ou o monstro. Sentiu-se o homem mais importante e corajoso do mundo, lembrou-se de quando era garoto e caçava cobras com os amigos no terreno baldio ao lado de sua casa. Era ele quem tinha essas idéias loucas. Anaiá apareceu, nua como da primeira vez. Não disse nada, nem um simples “boa noite”. Anselmo começou a ficar nervoso e ouviu o barulho da tampa da panela tremer. Controlou-se. Também não disse nada. Tudo correu como um ritual católico. Anaiá se ajoelhou à frente do homem corajoso que ela tanto procurou, fechou os olhos e recebeu um banho de leite em sua cabeça. Olhou para as mãos, parecia confusa. Levantou ainda se olhando. Até que finalmente sentiu os espasmos surgindo. Começou a se debater e Anselmo ficou assustado pensando se havia feito algo errado. A transformação teve inicio. A pele do corpo de rasgou, os cabelos caíram, a carne murchou e o demônio das profundezas do mar que se escondia no corpo dela apareceu. “Não se assuste, essa é minha verdadeira forma.”. Anselmo ficou mudo. “Obrigada pela sua ajuda. Nem todos vocês são monstros como eu pensava. Agora tenho que ir, minha família me aguarda. Adeus.”. Após dizer isso correu em direção ao mar onde gritos que pareciam de golfinhos, só que mais grossos e hostis a chamavam. E Anselmo ficou lá parado com a panela enferrujada firme nas mãos. Poderia pensar em muitas coisas naquele momento, mas só uma breve reflexão que o deixaria pensando por dias tomou conta de sua mente. “Será que eles temem os monstros que vivem na superfície?”

3 comentários:

wanderwilson disse...

Mais um conto de arrepiar! Parabéns, Rodrigo.

GTT disse...

Favor entrar em contato com o end financeiro@vialettera.com.br - referente à Caverna do Gibi

Pimenta disse...

A-d-o-r-e-i!