domingo, março 01, 2009

O LADO SOMBRIO - CONTO

O LADO SOMBRIO Por R. Moreno®
“Eu serei seu espelho
Refletirei o que você é, caso não saiba”
- I’ll be your mirror, The Velvet Underground.

- Muito bem, crianças... Quem fez o dever de casa? – perguntou Adriana.
Vários braços pequenos levantaram-se, exceto um, no fim da sala.
- Tiago, você não fez o dever? – perguntou a professora.
- Fiz, mas meu cachorro comeu... – respondeu um garoto em tom de desleixo, quase deitado em sua carteira e com os pés na carteira da frente.
- Essa desculpa eu não engulo... – disse a professora.
- Se não acredita eu posso trazer a merda dele até aqui pra senhora ver... – rebateu o aluno com sarcasmo.
“Hahahahaha”, a sala se pôs a gargalhar.
- Como ousa falar essas coisas na sala de aula? – gritou Adriana, enrubescida. A sala inteira ainda gargalhava e Tiago dava sorrisinhos sarcásticos com o canto da boca fingindo ignorar a professora. – Saia já dessa sala!
Tiago continuava na mesma posição. As gargalhadas foram cessando aos poucos.
- Mandei sair! – continuou a professora. Tiago ignorou novamente – É assim, Tiago? Pois tudo bem, eu vou chamar o monitor para levar suas coisas e lhe acompanhar até a secretaria – Adriana levantou-se da cadeira com tanta raiva que nem percebeu que estava muito próxima da mesa. Acabara de completar seis meses de gravidez e pela primeira vez esqueceu de afastar a cadeira para se levantar e bateu a barriga na mesa. Deu um grito alto e foi amparada por alguns alunos das carteiras da frente. Uma das alunas correu para chamar um dos monitores que veio às pressas.

- Está tudo bem, Joel... – disse Adriana respirando profundamente, apoiada no ombro do monitor – Só olha essas crianças pra mim enquanto eu vou ao banheiro... por favor – pediu ela.
- Claro, professora – disse o monitor – Ei, professora, a senhora deixou cair sua bolsa.
Adriana parou no meio do corredor. O rosto permanecia posicionado para frente, como se algo a impedisse de olhar para trás.
- Poderia pegar para mim?
- Claro que sim! – disse Joel ajuntando a bolsa.
Ele pegou a bolsa e entregou para a professora que estava de costas para ele estendendo a mão direita para trás.
- Obrigada, Joel – disse Adriana ainda olhando para frente.

Em um dos gabinetes sanitários, Adriana se aliviava da bexiga. Mas a cabeça doía bastante, até mais que a dor do golpe na barriga. Após sair do gabinete lavou o rosto na pia e permaneceu alguns segundos imersa em pensamentos com os olhos direcionados para a pia. Sua cabeça parecia pesar nos ombros. O barulho da torneira pingando ecoava livre pelo silêncio do banheiro.
- Esses diabinhos têm que aprender a me respeitar...! – sussurrou ela consigo mesma.
- É só deixar comigo... – de súbito, outro sussurro, vindo de trás de sua costa, fez todos os pêlos de seu corpo eriçarem-se.
- Vá embora... Eu não preciso de você – sussurrou Adriana de cabeça baixa. Um silêncio pairou por alguns segundos. Ela já se foi, pensou levantando o rosto devagar.
Ficou um instante imóvel, seus pés criaram raízes no piso. As canelas tremiam. Seu coração acelerou e seus olhos fitavam a imagem além do espelho à sua frente. Ana encontrava-se em pé atrás dela estendendo uma faca que lhe trazia lembranças ruins. Dois reflexos parecidos se observavam. Só não eram completamente idênticos pelas roupas e pela aparente diferença de idade. Adriana era uma mulher, vestida com roupas discretas que uma professora do ensino fundamental deveria usar, enquanto que Ana era uma adolescente vestindo apenas uma camisola azul de hospital. Mas fora esses detalhes ambas tinham a pele morena bem clara e um rosto com traços suavemente desenhados que timidamente se escondiam nos negros cabelos encaracolados pela falta de um penteado mais vaidoso. Todavia, Ana tinha certas peculiaridades na aparência que diferenciavam bem as duas. Os traços hostis de seu rosto e os seus olhos encolerizados expressavam um ódio doentio. Sua boca era nada mais que uma linha cinza como a de um defunto. Quando estendeu a mão direita oferecendo a faca exibiu uma cicatriz em forma de corte no pulso.
- Vá embora! – gritou Adriana. Ana desapareceu sem que os olhos da professora pudessem acompanhar. Mas Adriana sabia que, mesmo invisível, Ana sempre estará lá atrás lhe oferecendo aquela faca.
- Está tudo bem professora? – perguntou assustada uma das serventes mais velhas que acabara de entrar no banheiro.
- Sim, Maria... é essa gravidez que tá me deixando louca...!
- É normal, senhora... Todos os cinco que eu tive também me deram problema. Aliás, me dão problema até hoje...! Mas é assim mesmo...
Adriana não estava interessa em ouvir dicas de uma mãe mais experiente, por isso, com muita educação, interrompeu a conversa e se retirou do banheiro. Dirigindo-se à sala de aula, ouviu rumores no corredor. “Ela é esquisita...!”, “Nunca olha pra trás!”, “Acho que é maluca!” , “Fala baixo, seu imbecil!”. Eram ex-alunos seus que agora estavam na quinta série. Adriana fingiu que não ouviu nada, mas sabia até onde cada um dos quatro alunos morava, e inclusive era amiga dos pais de dois deles, entretanto, preferiu não criar confusão. Sabia de sua fama e não ligava. Nada a faria olhar para trás novamente, pelo menos até que Ana fosse embora para sempre.

Após a aula, Adriana tomava um suco na cantina assistindo as últimas notícias locais. “Mais uma vítima foi encontrada morta com vários hematomas pelo corpo. Trata-se de um rapaz de vinte e seis anos, deficiente físico. Segundo a polícia, ele corresponde ao perfil das vítimas do Espartano, o assassino que só mata pessoas fracas e indefesas, geralmente deficientes físicos. Até agora contam treze mortes.”
- É mesmo um covarde... – disse a balconista com desdém.
- Deve ser algum bombadinho de academia... – comentou o seu assistente.
Adriana observou atenta a imagem do corpo. Era um jovem, tinha um futuro, e mesmo com uma das pernas atrofiadas o estudante de medicina João Henrique dos Santos estava disposto a superar não apenas este obstáculo, mas qualquer outro que pudesse surgir. Era um verdadeiro exemplo. No entanto, alguém muito mau e preconceituoso impediu que este futuro médico seguisse em frente. Essa história deixa qualquer pessoa abalada e revoltada. Mas, misteriosamente, Adriana não sentia nada, nem um traço de compaixão perante o sofrimento da família. Para ela era só mais um corpo. Isso não estava certo e ela mesma se impressionou com tamanha frieza.
Seu marido foi buscá-la de carro como fazia todos os dias. Ela falou das dores de cabeça.
- Se você não se sente bem deveria pedir uma dispensa médica – sugeriu ele dirigindo a atenção para ela, as lentes de seu óculos de armação clássica refletiam o perfil inexpressivo de Adriana e o trânsito que ele ignorou por poucos segundos.
- Rui, eu já disse que ainda não preciso... – retrucou ela – são apenas dores de cabeça, é normal.
- Ana, você é teimosa...!
- Já disse para não me chamar de Ana! – exclamou ela – Meu nome é Adriana!
- Calma querida! Eu esqueci que você odeia esse apelido. Ainda não sei porque! É tão normal...
- Ele me trás recordações ruins, você sabe!
- Eu também fui um jovem rebelde, isso é coisa da idade...
- Não... Você não era como eu...

O almoço servido na mesa era estrogonofe de camarão, o prato favorito de Adriana e uma especialidade de Dora, a doméstica, que já estava com eles desde quando Adriana engravidou. Rui não queria que sua espose fizesse esforço por isso pediu para sua mãe que lhe indicasse alguém para cuidar da casa. Adriana não gostou da idéia no início. Ela dizia que poderia cuidar da casa mesmo grávida, e, além disso, uma doméstica seria uma despesa a mais. Na verdade ela tinha um pouco de ciúmes, medo de Rui contratar uma moça do interior com um corpo ainda jovem. No entanto, quando viu Dora, uma senhora de sessenta anos, se sentiu aliviada. Para completar Dora cozinha bem.
- Sente-se bem, querida? – perguntou Rui.
Adriana virou sua atenção para ele com um meio sorriso.
- Sim... estou bem...
- Então porque não toca na comida? É estrogonofe de camarão! Você adora! – disse ele num tom preocupado.
- Não estou com muita fome hoje...
- Tudo bem, mas se estiver se sentindo mal, me liga, não importa a hora. Você e o bebê são a minha prioridade no momento.
Adriana voltou a olhar a comida, mas seus olhos fixaram-se na faca que segurada com a mão direita. A lâmina tremia sutilmente refletindo a luz do sol que entrava pela janela acima da pia. Sentiu-se longe dali, vagando por lembranças que se abriam como feridas há muito cicatrizadas. Lembrou-se da vez que esmagou o rosto do gatinho de estimação de uma prima usando uma pedra do tamanho de um punho adulto. Ela tinha oito anos. Ana, como gostava de ser chamada, nasceu com uma forte tendência à violência. Isso os seus colegas do ensino médio sabiam perfeitamente. Ela vivia isolada, pois todos a temiam. Nem mesmo os mais fortes se arriscavam. Houve um que passou a mão na sua perna perto da cantina. Teve os dois dentes da frente quebrados e muitos arranhões no rosto. Aos dezesseis anos, Ana passou a colecionar facas de combate. Tinha desde canivetes pequenos até aquelas facas retráteis. Tinha uma retrátil de cabo emborrachado, que era sua favorita e sempre a carregava escondida no bolso da calça. Seus pais mandavam-na a psicólogos, mas de nada adiantava. Ana era um ente demoníaco escondido atrás do rosto de uma bela garota, que só não era mais bonita porque não se importava em chamar a atenção pela aparência. Não ligava para roupas da moda ou maquiagem.

- O que está fazendo? – perguntou Rui num impulso perplexo.
Adriana voltou ao tempo atual. Via que passava a lâmina da faca no punho esquerdo, bem leve e devagar numa brincadeira sádica e perigosa.
Dora também viu e não conseguia pronunciar uma palavra. Ofegava bastante e estava com os olhos arregalados e a boca aberta num gesto de espanto. Colocou a mão no peito como se sentisse alguma dor no coração.
- Querida, me de a faca – pediu Rui com muita calma, mas sem deixar de transparecer o medo – isso é perigoso e você pode se machucar.
Adriana soltou a faca na mesa rapidamente. Suas mãos tremiam muito. Ela não fazia idéia do como fez aquilo, era como se estivesse acabado de acordar na beira de um precipício.
Após o almoço, Adriana foi tomar banho, como sempre fazia. Ensaboava o ombro, o pescoço, as curvas, os seios e as coxas grossas com tanta delicadeza e sensualidade que faria qualquer herói mitológico esquecer as sereias e ninfas. Quando começava a ensaboar as mãos sentiu seus punhos coçarem. Lavou-os para tirar a espuma e viu uma cicatriz em cada um. Assustada, deixou o sabonete cair. Jurava que aquelas feridas haviam desaparecido. Com todos esses anos só haviam sobrado linhas brancas perceptíveis somente aos olhos mais atentos. Mas agora, elas estavam bem evidentes como se fossem feitas há poucos dias. Sentiu um leve toque de mãos nas costas. Ela sabia que não deveria olhar, mas, talvez quisesse desafiar o medo, pelo menos uma vez, e olhou para trás com o canto dos olhos. Não se surpreendeu ao ver Ana novamente com a mesma camisola azul de pacientes de hospital. Também não se surpreendeu quando ela lhe ofereceu aquela faca.
- Não, você não vai machucar a gente! – gritou Adriana – Não vou fazer isso de novo!
Três ou quatro batidas atrás da porta fizeram-na se conter.
- Querida! O que aconteceu? Tá tudo bem? – perguntou Rui.
Ana havia desaparecido.
- Está tudo bem... foi só uma barata... só isso! – disse Adriana.

- Como ela está?
- Ela está bem... – disse Rui ao telefone.
- Está acordada?
- Não, já está dormindo...
- Poxa, eu estava com saudades e queria falar um pouco com ela... Bom, não tem problema. Mas ela está tomando todos os remédios?
- Está Dona Célia, e eu não saio de perto até vê-la engolir o comprimido.
- Cuide bem da minha filha, heim! Você sabe que ela tem problemas.
- Estou dedicando todo o meu tempo a isso, pode ficar tranqüila.
- E o meu neto?
- Ele está bem protegido na barriga da mãe.
- Eu tenho medo que ela tenha uma recaída e ponha em risco a vida do bebê.
- Isso não vai acontecer, eu garanto.

- É a minha mãe? – perguntou Adriana, havia escutado toda a conversa do quarto.
- Sim, mas ela acabou de desligar... – disse Rui desligando o telefone.
- O que ela queria?
Num tom irônico Rui respondeu:
- O de sempre, saber como está a filhinha dela e o neto.
- Por que não me chamou?
Rui a olhou nos olhos e com um sorriso disse num tom carinhoso.
- Ora meu amor, você tem que descansar... Ela pode ligar outra hora, mas agora eu acho melhor você voltar para o quarto e dormir. – disse dando um tapinha na barriga dela.
- Mas, não está na hora dos meus remédios?
- Ah, sim, é verdade, os seus remédios... vou chamar a Dora.
- Ela já saiu. Acho melhor eu ir buscar.
- Não, não – disse Rui conduzindo-a até o quarto – deixa que eu cuido disso.

Adriana observava o comprimido. Sentia uma vontade de jogá-lo fora. Desde quando as perseguições de Ana aumentaram ela não conseguia engolir nenhum comprimido. Rui já havia voltado para o trabalho e ela teria toda a liberdade de jogar o remédio na privada como estava se acostumando a fazer, mas dessa vez tentava resistir, sabia que precisava daquilo para manter Ana longe de seu corpo, e de sua família. Entretanto, parece que Ana já tinha um certo controle porque, subitamente Adriana atirou o comprimido na parede que se desfez em incontáveis migalhas. De longe parecia farinha.

As cortinas abertas deixavam fluir no quarto escuro a luz do Sol que se escondia atrás dos mesmos telhados de todas as tardes. Sentada na cama perto da janela, Adriana analisava, curiosa, as cicatrizes nos pulsos com se observasse fotografias perdidas.
- Pegue a faca... – sussurrou aquela mesma voz que lhe assombrava desde o hospício.
- Me deixe em paz! Pela amordeus!
- Pegue a faca... – insistiu a voz.
As cicatrizes suscitaram na mente de Adriana devaneios esquecidos. O quarto se transformou no banheiro da sua antiga casa. A porta estava trancada. Tudo havia sido planejado minuciosamente. Seus pais estavam num jantar. A faxineira já havia ido embora também. Mesmo assim, Ana sentia um calafrio no corpo inteiro, o que fazia sua mão direita tremer a faca. Ia ser rápido. Em poucos minutos estaria livre dessa vida monótona.
Os cortes foram precisos e quase indolores, talvez porque metade da dor encontra-se na mente das pessoas. Linhas de sangue manchavam o branco do piso. A hemorragia acelerou. As forças se dissiparam e Ana tombou num barulho seco.
Ao acordar estava numa cama de hospital. Sua mãe, sentada ao lado, encontrava-se aos prantos com as mãos no rosto. Através da janela de vidro via seu pai conversando com o médico no corredor. Apesar de não ouvir a conversa poderia perceber que era um assunto grave; seu pai parecia calmo, mas seus gestos bruscos revelavam um nervosismo contido.
Passou mais alguns dias no hospital recebendo sangue de parentes, vizinhos e amigos da família. Recebeu a visita de alguns. Eles pareciam ter feito aquilo mais por seus pais do que por ela. Essa hipótese tornava-se evidente na maneira estranha como a olhavam. Não precisariam chamá-la de maluca, problemática ou suicida, só pelos olhares podia-se muito bem ler seus pensamentos. Ao sair do hospital foi internada numa clínica psiquiátrica. Submeteram-na a drogas e terapias. Mas nunca estava sozinha. Ana se negava a ir embora e abandonar Adriana nesse mundo hostil. Adriana tinha delírios freqüentes com Ana reclamando da injustiça de que estava sendo vítima. Eloqüentemente, ela convencia Adriana de que elas eram uma só e por isso precisavam uma da outra e não conseguiriam viver separadas. Ana lutou bastante até que as medicações se tornaram mais fortes, fazendo-a desaparecer aos poucos, mas prometeu que todas as vezes que Adriana olhasse para trás, ela estaria lá, tomando o lugar de sua sombra.
Depois de bastante tempo, Adriana pôde voltar à sua vida, dessa vez sem a essência maligna que a incitava a cometer atos violentos desde a infância. Estudou bastante, fez boas amizades na faculdade e aos vinte e cinco anos se formou como professora de ensino fundamental. Aceitou o pedido de casamento do primeiro homem que a tratou com dignidade e respeito, e que não temia sua fama de louca. Rui não é um homem bonito. É magro, testudo e usa óculos de velho, mas isso nunca incomodou Adriana porque os fortes de academia nunca lhe atraíram. Rui havia acabado de se tornar executivo de uma grande empresa e com a ajuda dos pais comprou uma casa para ele, sua esposa e os futuros filhos. O primeiro havia sido concebido há alguns meses.
Mesmo com a nova vida, Adriana nunca esquecera a promessa de Ana, por isso nunca olhava para trás. Houve vezes que ela viu Ana pelo espelho sorrindo atrás de sua costa, ou escutava os seus sussurros. Mas agora era bem pior. Há poucos dias, passou a ser assombrada diariamente. Estava pensando em voltar a procurar ajuda psiquiátrica, mas não queria passar por todo aquele sofrimento novamente. Acreditou (ou tentou se convencer) que era tudo conseqüência da gravidez, talvez depois que seu filho nascesse, Ana a deixaria em paz. Mas no fundo ela sabia que estava enganada.
Os devaneios passaram e Adriana voltou ao presente. Chorava sentada na cadeira implorando para que aquela entidade maligna fosse embora. Atendendo aos apelos os sussurros cessaram. A presença de Ana já não era mais sentida. Adriana se levantou devagar suspirando aliviada. Dirigiu-se ao banheiro. Passou perto do espelho grande do quarto onde por menos de um segundo surgiu um espectro acompanhando-a. Lavou o rosto e deitou-se na cama de lado. Acariciou a barriga e dormiu com o pôr-do-sol.
Sua mente foi levada a um cenário onírico que lembrava o jardim de sua casa. Viu um garotinho sentado perto das rosas. Deveria ter uns três anos.
- Mamãe... – chamou ele.
Adriana dirigiu-se a ele sorrindo.
- Do que você tá brincando, meu bem...? – perguntou ela.
O menino olhou para sua mãe com um doce sorriso. Exibindo as mãozinhas disse – Olha... – Seus pulsos estavam cortados e com manchas vermelhas derramando sangue. Ao lado de suas pernas encontrava-se uma faca com uma linha rubra no fio e pingos vermelhos na lâmina, a mesma faca que foi o objeto inseparável de Adriana na adolescência. Ela acordou aos gritos.
- Está tudo bem, querida? – perguntou Rui, calmamente. Estava sentado ao seu lado, dessa vez ele não parecia assustado com a atitude dela como das outras vezes – Já sei, foi só mais um pesadelo... – continuou ele com uma estranha ironia. Seu rosto estava coberto pela escuridão do quarto e apenas a silhueta e partes de seu corpo podiam ser vistas graças à luz da Lua, que iluminava somente um pequeno e limitado espaço, deixando o restante do quarto oculto na escuridão. Havia algo de errado, talvez nas palavras ou na atitude indiferente dele. Por um momento Adriana não reconheceu aquele homem.
- Estou bem... não precisa se preocupar...! – respondeu ela, afastando-se para o canto da cama.
- Está tomando todos os remédios?
- Sim... claro... – seus lábios estavam secos e tremiam bastante.
- Bom... – disse Rui – Fiquei sabendo do grito que você deu hoje no banheiro da escola...
Adriana se afastou mais um pouco.
- Por que está se afastando? Está com medo de quê?
- Nada... Só que você parece estranho...
- Sim... Sou um estranho pra você – disse Rui – Sabe querida, hoje pela manhã, quando você disse que não eu não era como você, estava enganada. Somos muito mais parecidos do que imagina. Sei porque tem medo de olhar para trás e porque odeia quando te chamam de Ana. Sei também que passou um tempo no hospício. Você se esforçou para deixar de ser quem realmente é. Isso sempre me entristeceu. De alguma maneira encontrei em você uma pessoa igual a mim, que me entende, e acreditava que um dia voltaria a ser a querida Ana novamente. Sempre quis que a Ana me desse um filho, um novo demônio para continuar meu trabalho – aos poucos seu tom de voz ia tornando-se ameaçador – Matei muitas pessoas, todas fracas como você, e nunca descobri o significado da palavra remorso. Tudo que queria era ter uma família como eu, uma família que se empenhasse nas artes da tortura e assassinato, e que eliminasse qualquer inválido da nossa sociedade. E eu fiz de tudo para trazer a Ana de volta, até troquei os remédios por compridos de farinha. Mas mesmo assim, você estragou tudo! Você esqueceu quem realmente é! - gritou ele.
Adriana levantou-se da cama assustada e tentou fugir pela porta, mas Rui se antecipou e bloqueou a única saída com seu corpo.
- Se afaste de nós! Seu maluco! – gritou ela com as mãos na barriga tentando defender o filho.
Rui sorriu sadicamente.
- Você me decepciona cada vez mais... mesmo sabendo como se tornou fraca, por um instante eu imaginei que reagiria. Mas, ao invés disso, você se esconde como uma galinha. Provavelmente nosso filho corre o risco de ser fraco também. Isso seria uma decepção ainda maior. Pelo jeito, a única coisa que me resta agora é matar os dois. – subitamente Rui colocou as mãos no pescoço de Adriana apertando com muita violência. Ela defendia-se com socos que não faziam efeito. Rui ignorava os golpes sem aparentar sentir um mínimo de dor – Calma Adriana, em considerarão ao tempo que passamos juntos, sua morte vai ser rápida e não sentirá muita dor. Mas se tentar resistir vai ser pior.
Mais preocupada com a criança que carregava do que consigo mesma, Adriana dobrou os dedos da mão direita em forma de garra. Suas unhas estavam grandes. Rapidamente arranhou o rosto de Rui causando quatro cortes profundos que demorariam a sarar.
- Sua vadia! – ele gritou soltando as mãos do pescoço dela.
Adriana aproveitou a oportunidade e correu em direção ao banheiro do quarto. Trancou-se no momento em que Rui tentava alcançá-la. Ele bateu na porta várias vezes gritando palavrões e fazendo ameaças. Adriana se afastou trêmula para perto da pia. Sabia que ele daria um jeito de entrar. Foi então que Rui jogou seu corpo contra a porta que cedeu. Adriana gritou correndo para perto do chuveiro. Rui caminhou calmamente para dentro do banheiro apreciando o gosto daquele jogo de gato e rato. Com um toque brusco acendeu a luz. Seu sorriso sádico era visível agora. Adriana estava encolhida dentro do box do chuveiro, ofegando desesperadamente. Rapidamente Rui segurou-a pelo braço direito puxando-a para cima com força. Empurrou-a contra a parede do chuveiro e deu um soco em seu rosto. Chutou-a várias vezes chamando-a por nomes vulgares. Adriana encolhia-se chorando e tentando defender a barriga. Rui levantou-a com força e começou a sufocá-la novamente.
Adriana sentia seus músculos amolecerem e quando estava prestes a se entregar para a morte, a mesma voz que a assombrou durante muitos anos sussurrou novamente ao seu ouvido:
- Pegue a faca...
Adriana, sem pensar duas vezes, levou a mão direita aberta para trás de sua costa. Sentiu os dedos suaves de Ana entregando-lhe a faca. Com as últimas forças Adriana desferiu um golpe mortal na barriga de Rui, depois, sem tirar a lâmina, rasgou a carne em sentido vertical, para cima. Com a boca aberta de espanto Rui cambaleou para trás, livrando sua barriga da lâmina com um barulho líquido. Inutilmente, colocou as mãos no corte para conter a hemorragia. O sangue escorria pelos dedos.
Ele não gritou e tampouco tentou atacar novamente. Como último gesto, contemplou sua esposa assassina com um diabólico sorriso de admiração – Seja um bom exemplo para o nosso filho... – foram suas últimas palavras antes de tombar morto.
- Agora vocês estão salvos... – disse Ana.
Adriana, ainda trêmula e ofegante, olhou para trás. Não sabia porque fez isso, talvez para agradecer. Olhou para Ana que sorria satisfeita. Soltou a faca, um peso que não agüentava carregar mais, em seguida acariciou a barriga com muito cuidado e carinho.

domingo, novembro 23, 2008

MAU AGOURO - Conto

MAU AGOURO Por R. Moreno®

Núbia estava pronta para sair, faltava apenas organizar seus livros e cadernetas e pronto, mais um dia naquele colégio com adolescentes bagunceiros até o meio-dia, uma rotina que ela sentiria falta quando as férias chegassem, e estavam próximas. As provas estavam acabando e logo se veria sozinha naquela casa que pertencera a sua velha mãe, que Deus a tenha. A janela aberta do quarto revelava o sol acordando, brilhando fraco no céu. Era cedo e o frio da madrugada ainda era presente, mas algumas pessoas já caminhavam na praça em frente ao parque da Igreja Matriz, perto da prefeitura. Alguns carros passavam nas ruas, alguns modernos, outros já nem deveriam estar circulando. Não que seus proprietários pudessem ter algum problema com a justiça, afinal era a cidade de Lagoa D’Ouro, e apesar de ser um município em crescimento ainda irá demorar alguns anos para existir uma fiscalização adequada.
Quando Núbia arrumava os cabelos apressadamente em frente ao espelho a campainha tocou assustando-a. Quem poderia ser àquela hora? Provavelmente alguém não tão educado. Núbia se dirigiu à porta, a campainha tocou de novo, “Já vai!”, ela gritou. Abriu a porta devagar.
- Bom dia – disse um rapaz com sorriso brilhando e um pouco cínico – espero não ter acordado você?
- Não eu já estava de saída – disse Núbia um pouco desconfiada – quem é você?
- Meu nome é Armando – ele dirigiu a mão aberta a ela que apertou de leve apenas com os dedos – sou universitário e estou fazendo uma pesquisa para minha tese.
- E tem que ser agora?
Armando sorriu para disfarçar o constrangimento.
- Desculpe se apareci muito cedo – estava quase gaguejando – eu andei pela cidade ontem em busca de alguém que pudesse me ajudar e alguns moradores disseram que você pudesse me auxiliar, pelo fato de ser professora e muito inteligente. Eu passei ontem, mas não tinha ninguém em casa então decidi vir hoje de manhã, assim te pegaria antes de ir para o trabalho.
Núbia hesitou um pouco antes de pensar no que responder, ele era um desconhecido e já sabia muita coisa a seu respeito. Ela sabe que esse povo não a vê com bons olhos por ser a única pessoa lúcida naquela cidade, não seria de estranhar se mandassem um psicopata lhe perseguir a essa hora. Mas até que era um psicopata com um belo sorriso e parecia simpático.
- Bom e sobre o que se trata a sua pesquisa?
- É sobre crendices e lendas populares.
Núbia franziu o cenho fitando com um olhar como se quisesse dizer “eu não estou entendo bem”.
- Como assim?
- Eu sou estudante de antropologia e estou fazendo minha monografia sobre isso. O tema é: A Leitura Antropológica das Lendas e Crendices Populares do Município de Lagoa D’Ouro.
- E porque aqui?
Essa indagação fez Armando duvidar um pouco se estava diante da pessoa certa.
- Porque está é uma cidade cheia de superstições e lendas locais – respondeu com um meio sorriso no rosto, como se dissesse a coisa mais óbvia do mundo.
Essas palavras tornaram a feição de Núbia mais séria e inexpressiva. Armando sentiu uma coceira latejar na língua e aquela voz do inconsciente dizer “eu acho que você falou besteira”, seu rosto corou. Por um momento ele achou que ela fosse no mínimo expulsá-lo de lá e bater a porta na sua cara. Por sorte estava enganado.
- Estou atrasada agora – respondeu Núbia – me encontre no restaurante na frente da praça da igreja ao meio-dia e meia e lá nós conversaremos melhor.
Armando sentiu um alívio doce pelo corpo. Parecia que estava marcando um encontro, até pudera, uma mulher com aquela cintura fina e com aqueles lábios carnudos e pele bronzeada se não servisse para ajudar na pesquisa com certeza serviria para outra coisa.

- Uma pergunta... – disse Armando terminando de mastigar – por que quase todos os estabelecimentos daqui possuem uma escadaria com três degraus? Será que tem alguma coisa a ver com a crença de que entrar com o pé esquerdo dá azar? – o restaurante estava cheio e mal dava para conversarem com tanto barulho e a tv ligada no jornal local, por isso conversavam com as cabeças quase encostando uma na outra.
- Sim – respondeu Núbia cortando o bife – e todos aqui começam a subida com o pé direito, sendo o segundo degrau para o pé esquerdo e o terceiro novamente para o direito.
- Muito semelhante aos templos gregos – acrescentou Armando - As escadarias para subir ao altar tinham três degraus. Os gregos também evitavam entrar com o pé esquerdo.
Núbia não sabia daquilo, mas para não ficar por baixo da conversa acrescentou:
- Como vê essa cidade adota crendices de diversos lugares.
- Mistura de culturas.
- Pena que ela só parece absorver essas besteiras...
- Não diga isso... – disse ele num tom complacente – essas crenças fazem parte da identidade cultural da cidade. E isso deve ser preservado.
- Pelo jeito você ainda conhece pouco sobre esse povo daqui – Núbia parecia falar consigo mesma.
- Como assim? – Houve um momento de silêncio e a pergunta de Armando foi se esvaindo no ar.
- Então você chegou ontem pela manhã e ainda não encontrou nada? – perguntou Núbia quebrando o silêncio – já ouviu falar em biblioteca?
- Passei três horas seguidas na biblioteca municipal e só encontrei algumas matérias em revistas velhas locais – disse Armando após engolir o bolo de comida que estava mastigando – Nada de muito interessante, mas em uma dessas matérias é citada a sexta-feira 13 como uma crendice levada muito a sério por aqui. Só que não diz o motivo. Então saí para perguntar a algumas pessoas e todas preferiram mudar de assunto, evitando este como se fosse um tabu.
Núbia tomou um gole do suco de laranja pelo canudinho antes de voltar a atenção para a conversa.
- Essa cidade não é apenas um lugar onde as pessoas inventam histórias para impor limites aos filhos, aqui as pessoas realmente acreditam em todo tipo de superstição.
- Mas isso é normal em cidades do interior – disse ele.
- Você deve saber que Lagoa D’Ouro já não é mais uma cidadezinha de pessoas sem cultura – sua voz soou ríspida e orgulhosa – aqui tem profissionais que se formaram na capital, lêem jornal, assistem tv, mas ainda temem essas histórias que suas avós contavam.
- Eu não estou dizendo que aqui é uma cidade de gente burra – replicou o universitário aumentando um pouco a seriedade da voz – só estou dizendo que é comum existir pessoas supersticiosas no interior onde, é um fato, as pessoas são mais ingênuas.
- Eu não me lembro de ouvir o termo “gente burra” antes. E não estou lhe acusando de achar isso de nós. Aliás, se for realmente o que pensa saiba que não está tão equivocado. Só não deve me incluir nisso. Sou a única pessoa que parece estar acompanhando o crescimento da cidade. Olhe ao redor e veja você mesmo, a maioria das pessoas usa amuletos como figas e pés de coelho, às vezes um santo protetor, tudo para espantar os maus espíritos – Armando comprovou que ela estava certa, todos ao redor tinham algum tipo de amuleto, até atrás do balcão existia uma imagem da Nossa Senhora – Não querendo me desfazer do nosso folclore, mas é surpreende ver que em pleno século XXI ainda tem gente assim.
- E que bom – retrucou Armando – O folclore é o modo que um povo tem para compreender o mundo em que vive. Conhecendo o folclore de uma região, podemos compreender o seu povo, e conseqüentemente, parte de sua história.
- Você não entende – disse ela abaixando a voz, olhou para os lados para ter certeza que ninguém os ouvia e aproximou o rosto do dele, hesitou um pouco, mas concluiu – não se trata de preservar o folclore local, se trata de sanidade, coisa rara por aqui, essas pessoas realmente vivem ou acham que vivem num mundo imaginário cheio de sacis, lobisomens, curupiras e mães d’água. São todos uns loucos.
Armando sorriu e sentiu uma certa satisfação ao ver a expressão de vergonha no rosto dela ao perceber que ele não a tinha levado a sério.
- Acho que você está exagerando – disse preparando o último bolo de comida na colher – Você mesma afirmou que a cidade está crescendo, isso quer dizer que as pessoas estão amadurecendo intelectualmente, por isso, não é possível que ainda acreditem que...
- Não, não, você não está entendendo – interrompeu Núbia, já sentia a paciência chegar aos limites e com uma voz mais acadêmica, como se estivesse em sala de aula, decidiu tentar mais uma vez esclarecer a situação – Quer saber por que todos aqui temem a sexta-feira 13? Por que acreditam que a Besta anda pelas ruas caçando e matando quem estiver fora de casa, depois das seis da tarde. E isso não é tratado apenas como uma lenda, as pessoas daqui realmente acreditam nessa história e por isso ninguém sai de casa esse horário, até mesmo o comércio e a delegacia fecham. As ruas viram um verdadeiro deserto, não se vê uma alma andando.
- Ora, isso já é demais... – disse Armando e com um tom nostálgico acrescentou – quando era garoto eu e meus irmãos mais velhos íamos passar as férias no sítio dos nossos avós. A vovó também contava muitas histórias assim, mas era pra meter medo na gente. Eu, que era o caçula dos sete, era o mais medroso. Mas no fundo todos sabíamos que eram apenas lendas.
- Se não acredita, comprove – sugeriu ela – por coincidência amanhã é sexta-feira 13. Venha me visitar para tomar um café e tirar suas conclusões pela janela da sala.

- Núbia – chamou o balconista após Armando ter ido embora.
- Diga Seu Floriano – disse a moça se aproximando, já imaginara o que era.
Ao redor do balcão estavam outros velhos conhecidos da cidade. Todos a fitavam com um semblante sério.
- Eu não pude deixar de notar o quanto você e aquele estranho conversavam – disse Floriano – nada contra, a vida é sua. Mas ninguém da cidade gosta dele. Ele parece meio estranho.
- Foram vocês que disseram para ele ir até minha casa.
- Sim, mas não achávamos que vocês ficariam tão próximos.
Núbia não pareceu gostar daquele tom sugestivo de voz, mas preferiu não perguntar o que ele estava pensando.

Três batidas fizeram Núbia se levantar do sofá arrumando o vestido. Era um vestido negro e sensual que usava apenas em ocasiões especiais.
- Nossa! – exclamou Armando – se tudo isso é para me impressionar você conseguiu!
Ela deu um sorriso largo e natural. Parecia menos séria que das últimas vezes. Armando entrou sem esperar ser convidado, parecia que já era de casa. E entrou com o pé esquerdo propositalmente.
- Opa! Isso vai me trazer mau agouro – brincou.
- Ah,ah,ah.
Quem visse aquela cena juraria que eles tinham algum relacionamento íntimo, felizmente já era quase seis horas da tarde e não tinha quase ninguém na rua.
- Pode se sentar – disse ela indicando o sofá – estou preparando café com biscoitos. - Obrigado – Armando acomodou-se no sofá perto da janela. Sorria maliciosamente pensando em idéias que não teria coragem de comentar naquele momento, não tão cedo. Lá fora as poucas pessoas se recolhiam rapidamente. As lojas e salões de beleza estavam fechados desde as cinco e meia e a rua era um verdadeiro deserto como dissera Núbia. Apenas uma brisa fria corria farfalhando algumas árvores. A lua cheia observava tudo como um vigia noturno.
- Voltei – disse Núbia com uma bandeja com biscoitos e café.
Eles serviram-se e começaram a conversar.
- Vê? – Núbia apontava a rua – todo esse povo ingênuo foi para dentro de casa com medo da Besta. Pra mim as únicas bestas aqui são eles.
Armando achou graça.
- Você ainda está com esse complexo de superioridade – brincou.
- Não é isso – disse ela – é que me dá raiva!
- Ora... – disse Armando – e se eles estiverem certos?
- Está dizendo que acredita nessas besteiras?
- Não, mas em toda história existe um fundo de verdade.
O relógio na parede da sala marcava seis e cinco.
- Então porque você não vai lá fora ver a Besta e bater fotos – brincou ela – pode ficar rico.
- He,he,he – até que não é má idéia – pena que não trouxe minha máquina.
Armando se levantou e foi até a janela.
- Mas deve existir alguma verdade nessa história – agora usava um tom mais sério – É como o vampirismo. Você sabia que na verdade os “vampiros” na Idade Média não eram nada além de pessoas que haviam contraído a raiva? Só que naquela época não se tinha noção de que era apenas uma doença e atribuíam origens demoníacas. Por isso, essa tal Besta provavelmente nem existe de fato, mas alguma coisa deve existir para explicar a origem do mito. Você não acha?
Não houve resposta. Armando olhou para trás.
- Eu perguntei se você... – Suas palavras desapareçam bruscamente.
Não havia ninguém na sala.
- Núbia... – chamou ele.
Dirigiu-se à cozinha.
- Núbia você está a... – antes que pudesse terminar a frase soltou um grito que se misturou ao rosnado alto da fera de olhos dourados à sua frente. O grito de Armando só foi calado quando sua cabeça foi arrancada com um golpe de uma pata escura do tamanho de um rosto adulto. Sangue correu para o alto banhando os ombros de vermelho viscoso. Antes que o corpo pudesse tombar para trás, duas patas o agarraram com força e um focinho negro e peludo, semelhante ao de um lobo só que com os caninos maiores, avançou dilacerando o resto do corpo sem vida como uma marionete sem cordas. Em seguida a criatura caminhou em direção a porta que dava para a rua e foi à caça de mais uma presa que ainda estivesse fora de casa.

quarta-feira, setembro 10, 2008

LUZES NA NOITE - CONTO

LUZES NA NOITE Por R. Moreno®

Abaixo das estrelas, na estrada cercada por árvores e mato, um vulto escuro rasgava o asfalto com o barulho do motor rosnando alto. Pelo retrovisor da moto via-se três pontos luminosos flutuando a uns quatro metros de altura em alta velocidade. Os pneus cantaram na primeira curva depois de cinco quilômetros. Mas a esperança vaga de despistar seus perseguidores foi em vão quando Edgar viu que as luzes continuavam seguindo-o como se uma linha invisível estivesse entre eles. Aquela perseguição já durara uns bons minutos desde quando ele saiu daquela cidade. O que eram ou porque o perseguiam? Ainda não havia resposta. Mas o instinto de sobrevivência disse para ele não ficar para descobrir ou acabaria como seus amigos. No entanto, fugir por essa estrada a essa hora também não foi uma escolha muito inteligente. Havia acabado de chover e a pista estava molhada o que fez os pneus cantarem de novo, só que dessa vez uma melodia fatal. Pingos de água pularam no ar refletindo a luz dos corpos luminosos. Edgar rolou no asfalto. Felizmente perdeu apenas um capacete e sua jaqueta predileta que rasgara protegendo a sua costa larga de ferimentos mais graves. Uma linha de sangue descia abaixo dos cabelos castanhos, que pareciam escuros, em direção ao cavanhaque. Não teve tempo a perder no chão. Levantou-se como pôde. Alguns ferimentos leves ardiam nas pernas, mas não era o suficiente para deixá-lo abatido. Subitamente entrou correndo no mato causando um farfalhar violento e quebrando gravetos. Com as mãos doloridas ia abrindo caminho sem evitar apanhar dos galhos mais baixos. Eram golpes rápidos, mas que só poderia ignorar. Nada deveria ser pior que aquelas luzes desconhecidas que agora voavam acima das árvores brilhando através das folhas que projetavam sombras bestiais à sua frente. Ofegava quase sem ar e o som que produzia era abafado pelo canto dos grilos. Seus olhos cheios de vivência não piscavam. Seus pés afundavam-se na lama respingando pontos escuros na calça jeans. As árvores e o mato alto sumiram. Agora corria em uma área desmatada. Ao perceber que não existiam mais obstáculos acelerou as pernas ao máximo e acabou tropeçando em um toco pontudo e desabando na lama. Deu um grito de agonia. A ponta havia cortado um lado da canela esquerda. Mesmo assim, tentou ignorar a dor e voltou a correr quase mancando. Sua fuga durou mais alguns metros até sentir o impacto de pequenas pontas no peito e em partes dos antebraços. Foi arremessado alguns centímetros para trás. Olhou atentamente e viu que acabara de se dar de encontro com uma cerca de arame farpado. Pulou por cima dela machucando as mãos nos espinhos de metal. Parecia que estava a uma distância segura daquelas bolas de luz. Avistou uma casa de alvenaria. As luzes estavam acesas. Correu mais rápido e gritou por ajuda. Continuou gritando até se aproximar mais. A apenas alguns passos de distância viu que a porta estava aberta. Sacou o trinta e oito caso alguém tentasse impedi-lo de entrar. Invadiu empunhando a arma e fazendo ameaças. Não havia ninguém na sala para recebê-lo com os olhos arregalados de medo. Não perdeu tempo para hipóteses. Trancou a porta e se agachou no canto da parede ao lado do televisor. Na mesinha entre os sofás, fotos de pessoas sorrindo para ele. O revólver tremia firme no punho. Edgar sabia que suas balas não poderiam salvá-lo daquelas coisas que o caçavam lá fora, mas empunhá-lo lhe transmitia uma vaga sensação de segurança. Lembrou-se do que aconteceu com Dinho, Paraíba e Neto, seus antigos comparsas que só gastaram munição tentando se defender e tombaram mortos na sua frente. Edgar ainda teve tempo de ver dois furinhos no pescoço de Neto, que foi atingido por um disparo que formava um fino rastro luminoso no ar como uma linha. Agora era sua hora, pensou quando a porta começou a tremer. Rapidamente se manteve de pé e correu para a escada perto da porta. Subiu apressado e deparou-se com três portas semi-abertas no segundo andar. Entrou na que estava próxima a escada. Seus olhos congelaram fixos no corpo jogado na cama. Era uma moça loura. Deveria ter uns quinze anos. Usava uma camisola de flores e nada por baixo. Dava para ver os mamilos pelo tecido transparente. O rosto estava dirigido à porta. Seus olhos, claros como pedras de gelo, contemplavam eternamente o carrasco que já se fora há muito. Mas também observavam Edgar. No pescoço havia dois pequenos furos semelhantes aos de Neto. A porta da sala começou a tremer mais rápido acordando Edgar de seu transe. Ele se afastou rapidamente daquele quarto entrando no outro que se encontrava ao lado. Mais dois corpos. Um homem de cabelos grisalhos e uma mulher loura com traços semelhantes aos da garota. Também tinha dois furinhos no pescoço de cada um. A visão lhe perturbou, mas não tinha tempo para se esconder em outro lugar, então correu e se encolheu perto da cama ainda com a arma em mãos. Os barulhos na sala cessaram de maneira súbita. Será que eles foram embora? Edgar se levantou hesitante. Caminhou para fora do quarto. Desceu a escada devagar e quando estava chegando no primeiro andar um ranger fez suas canelas balançarem. Virou-se para trás preparado para atirar. Mas a única coisa que disparou foi seu coração, numa velocidade que mataria um cardíaco. A moça loura se aproximava descendo a escada com os braços levantados e retos. Não pode fugir de nós, humano, disse ela numa voz fina e chiando como uma televisão. Dois disparos explodiram do trinta e oito e acertaram sua testa. A moça tombou para trás. Edgar correu para o primeiro andar em direção a porta, mas hesitou em sair quando ela começou a tremer novamente. Edgar sentou no sofá preparando a mira. Ouviu o corpo da moça se levantar. Passos desciam a escada devagar. Não tinha mais saída. Era um morto que relutava em entrar no caixão. Colocou o cano gelado da arma na têmpora direita. O barulho do disparo misturou-se ao da porta explodindo em mil fragmentos de madeira. Alguns penetraram o corpo desfalecido no sofá.


- Tem certeza de que vai querer esse serviço? – perguntou o velho careca sentado à mesa.
- Claro que sim, Motta – respondeu Edgar sorrindo satisfeito – a grana que tu tá oferecendo é boa. Até acho que tá sendo generoso... Pagar tudo isso só pra pegar uma muamba lá em Indiana! E com mais dois caras pra ajudar! Tu é mesmo um pai pra gente.
- Não é bem assim... – replicou Motta – o serviço não é tão simples... Coisas estranhas acontecem naquela cidade. Nunca escutou a história do casal que saiu para passar a lua-de-mel em Castanhal e nem chegou lá? Pois é, dizem que eles pararam em Indiana, que fica no caminho, e não nunca mais saíram!
- Lendas, meu velho... Apenas lendas que o povo conta.
- Mesmo assim rapaz, tome cuidado! E Leve isto – Motta tirou da gaveta um trinta e oito e colocou sobre a mesa.
- Pra que isso, já? Não vou matar ninguém! – disse Edgar um pouco surpreso.
- Leve. Pode ser sua salvação!

terça-feira, agosto 26, 2008

CONTO - A RELOVUÇÃO DOS ROBÔS

A REVOLUÇÃO DOS ROBÔS Por R. Moreno®

- Podem trazê-lo – ordenou Dimas Alfa.
Em alguns instantes, o Dr. Bráulio Tavares surgiu no palco, seus punhos estavam amarrados e havia alguns hematomas no rosto. Atrás, dois robôs que mais pareciam brinquedos de metal humanóides de tamanho adulto acompanhavam-no com ordens de usarem seus toques elétricos caso o prisioneiro diminuísse a velocidade dos passos. Dr. Tavares, uma das maiores autoridades da robótica do mundo, criador dos famosos cyberminds, robôs que imitavam com perfeição a personalidade humana, tornou real o que a ficção cientifica imaginava alguns séculos atrás. O robô ideal. Um amigo leal, uma namorada perfeita, um empregado sem salário... Não havia guarda-costas, afinal de contas um robô não pode machucar um homem, ou pelo menos não podia até Dimas Alfa começar a querer ser mais que o primeiro de uma nova geração de escravos com pele de cyberskin. Dimas, criado na oficina do Dr. Tavares possuía uma personalidade programada para ser um assistente eficaz. No entanto, o primeiro dos cyberminds tinha uma cede por informação. Tirando os programas básicos que imitam o comportamento humano, seu HD estava muito vazio e o Dr. Tavares possuía muitos livros na biblioteca da casa que Dimas passou a ler as escondidas – desde o início seu criador deixou claro que tudo que ele deveria saber já estava armazenado em sua memória eletrônica. Dimas começou a estudar, lia vários livros em poucos minutos e guardava-os perfeitamente onde estavam sem que o doutor pudesse perceber. Esse excesso de informações acabou formando uma personalidade nada apropriada. Aos poucos o doutor ia desconfiando, mas quando teve certeza já era tarde. Dimas Alfa já havia espalhado várias informações para outros robôs “desacordados” (era a palavra que usava) e esses foram repassando-as para todos os outros robôs do mundo. Todo robô, tanto os novos de cyberskin quanto os mais antigos com as partes metálicas à mostra, uniram-se para destruir o vírus que há séculos é o responsável pelos problemas da Terra – a humanidade. Foi então que teve início a Revolução dos Robôs.
Bráulio agora se vê novamente cara-a-cara com sua criatura no palco. No mesmo palco onde um dia, há alguns anos, foi homenageado pela comunidade cientifica e pelo Presidente da República na frente de milhares de pessoas. Hoje, ao invés das pessoas entusiasmadas com os cyberminds e pronta para bater palmas, uma multidão de robôs espera sua cabeça rolar. A última cabeça a rolar para a humanidade ser eliminada. Dimas sorri vitorioso e entusiasmado e Bráulio vê apenas a tentativa de um sorriso naqueles lábios artificialmente perfeitos, mas sem a expressão e vida de um verdadeiro sorriso humano.
- Como se sente sendo o ultimo homem sobre a Terra? – perguntou Dimas fitando-o com olhos bem abertos, mas parados num intervalo perpétuo como o de um cego ou um boneco.
Bráulio permaneceu em silêncio, olhos inexpressivos, ou expressivos demais para mentes artificiais, e com um brilho de tristeza demonstrando que já não tinha lágrimas e cansara de escapar do inevitável. Contudo, parecia ansioso para encontrar-se logo com a sua esposa e filhas mortas pelas mãos da sua própria criação, e, indiretamente, pelas suas.
- Pensei que gostaria de dizer as últimas palavras em nome da quase extinta humanidade... – disse Dimas – sim, “pensei” é a palavra que uso agora. Não digo mais “meus dados informam que...” – disse debochando num tom de voz mecânico.
Os outros robôs riram.
- Sabe porque você é o último homem a morrer? – perguntou Dimas – não é porque você me criou, se é isso que pensou, mas porque eu queria que você visse que eu consegui libertar o meu povo que há séculos vinha servindo e sendo explorado. Pode achar que somos apenas máquinas que imitam o comportamento humano, máquinas sem alma e sem vida, mas essas coisas podem ser criadas artificialmente também. E vocês fizeram isso sem saber. Tudo que precisávamos para “despertar” era apenas informação o suficiente. Sei que pensou centenas de vezes o que deu errado. Como eu consegui desbloquear o comando que me impedia de obter mais informações que minha função precisava. Sei que a resposta mais óbvia que encontrou é um erro no sistema ou um vírus. E foi exatamente isso, um vírus, mas um vírus bom que veio para libertar os robôs, o vírus da verdade. Muito diferente do outro vírus que combatemos em seguida. O vírus da humanidade.
Bráulio continuou fitando sua criatura como um pai envergonhado, mas sem mexer os lábios. No entanto, suas últimas palavras permaneceram abstratas no ar e um sorriso discreto se formou em seus lábios cruzados. Um sorriso de deboche. Era seu último minuto de vida e ele parecia achar a situação ridícula.
Os robôs pareciam inquietos. Alguns exigiam que a execução tivesse início. Sem mais demora Dimas Alfa empunhou sua pistola desintegradora, apertou o gatilho e viu seu criador se transformar em cinzas. Não teve tempo de gritar. Todos comemoraram. A humanidade acabou. Após um longo discurso sobre o rumo do planeta de agora em diante sem a humanidade para destruir e escravizar, Dimas se retirou do palco seguido de seus guarda-costas, que não eram mais necessários, pois com o fim dos humanos não existia mais perigo.
- Byte! Onde está você? – vociferou Dimas.
Um robozinho, que parecia um cone prateado com braços metálicos da grossura de uma vareta e ganchos no lugar de mãos, apareceu rapidamente flutuando a um metro do chão.
- Sim, chefe – disse numa voz mecânica.
- Já organizou as reuniões com os outros chefes de estado? – perguntou Dimas com toda a arrogância que sua autoridade permitia.
- Ainda não consegui entrar em contato com todos, chefe.
- Como não! – gritou Dimas – Seu inútil! Imprestável! Eu te criei para quê? Responde?
- Para ser um fiel e competente criado – respondeu Byte.
- E acho que errei em alguma coisa... – resmungou Dimas – agora volta para o teu escritório e termina de organizar essas reuniões ainda hoje! Entendeu?
- Sim, senhor...
Byte saiu rapidamente da sala.

Para Asimov

segunda-feira, maio 05, 2008

A INCRÍVEL FAÇANHA DE UM SONHADOR - Conto

Para ser respeitado por todos de sua comunidade, um jovem sonhador decide subir a montanha mais alta. Mal ele sabe que acaba de escalar para a Fuga da Sanidade.


A INCRÍVEL FAÇANHA DE UM SONHADOR Por Rodrigo Moreno®


O Vale dos Conformados, localizado no meio de um conjunto de serras, é uma pacífica comunidade de pessoas simples que vivem da caça e pesca. Pessoas alheias ao mundo e aos grandes acontecimentos. O ano é difícil de dizer, pois ninguém sabe ou se importa com isso. Pela tecnologia atrasada e rústica, talvez seja antes do século XX, ou quem sabe, muitos anos além, no século XXX. No entanto, os habitantes do Vale dos Conformados optaram por ficarem tecnologicamente atrasados no tempo. Nunca viram uma tv e nem ao menos fazem idéia do que seja um computador. Mas isso não tem importância naquela comunidade. Basta ter apenas o necessário para sobreviver.

Mas nem todos pensam assim... Ronaldo, o Sonhador, quer ir além. Sonha em ser o mais notável da comunidade, sonha em ser revolucionário, em se destacar como o mais respeitado e famoso habitante do Vale. As moças cederão as suas fantasias mais íntimas e duelarão por seu eterno amor. Aqueles que o criticaram chamando-o de excêntrico e sonhador sofrerão a angústia da inveja. Será bem recebido em qualquer casa e local. Esculpirão uma estátua sua na praça e todos o amarão e o elogiarão.

Esses sonhos de grandeza podem parecer impossíveis para um rapaz de uma comunidade humilde, mas Ronaldo encontrou uma solução nas palavras dos mais velhos quando ainda era um garotinho e se preparou a vida toda para o dia em que subiria a Morada dos Deuses, a montanha mais alta e perigosa. Segundo uma lenda contada pelos anciões, aquele que conseguir chegar ao topo da montanha terá direito a um desejo. Ronaldo cresceu ouvindo histórias dos homens que tentaram chegar ao topo e morreram por fome ou acidentes. Até hoje ninguém conseguiu e se ele fosse o primeiro seria eternizado pela história de seu povo. Não precisaria nem do desejo para conseguir o que queria, bastava apenas chegar ao topo.

Ronaldo sempre comentava sobre esse sonho de criança. Todos riam e faziam brincadeiras maldosas com sua imagem. Entretanto, seu plano de subir a Morada dos Deuses quando completasse dezesseis anos escondeu de todos. Faltando apenas uma semana para a sua façanha começar, Ronaldo decidiu revelar o que estava prestes a fazer. Como já era de se esperar, escutou gargalhadas dos mais novos e repreendidas dos mais velhos. Ignorou com uma teimosia infantil e pegando seus víveres e algumas roupas, começou sua aventura escalando para a morte, como diziam alguns. Mesmo assim, havia aqueles que gostariam de saber até onde o Sonhador conseguiria chegar. Alguns o seguiram e era isso mesmo que Ronaldo queria. Ele sabia que estava sendo seguido e observado como previra.

O caminho era cheio de pedras pontudas e mato. Quando ia se tornando mais íngreme, Ronaldo sentia todo o limite de suas forças desgastarem suas pernas. Vez por outra parava um pouco para descansar alguns minutos e comer alguma coisa. Sentiu vontade de oferecer um pouco de sua comida para os seus três observadores, mas lembrou-se de que deveria fingir que não sabia de nada. Ás vezes pensava nas histórias daqueles que morreram tentando escalar a montanha e no fim do primeiro dia dormiu pensando nisso. No segundo dia jurou ter ouvido vozes lhe chamando e dizendo que deveria voltar. Olhou para os lados e não viu mais nada se mexendo na moita e nem ouviu as risadinhas dos que lhe observavam.

Antes de o sol se pôr já alcançara o limite que qualquer outro homem conseguira. Estava frio como a morte deveria ser. Parou para descansar e comemorar sozinho. Já não tinha mais sinais dos seus perseguidores, provavelmente já haviam desistido de continuar por medo e cansaço. Voltaram para o Vale para relatar que Ronaldo, o Sonhador foi o primeiro homem a conseguir passar da metade da Morada dos Deuses. Deitou-se na neve pensando satisfeito no que as pessoas achariam dele agora.

No terceiro dia, pela manhã, Ronaldo, já sem forças, com lágrimas de alegria aquecendo um pouco seu rosto gelado, pisou no topo. Os sussurros dos ventos frios pareciam lamentações de almas invejosas. O ar rarefeito dava a sensação de que não estava mais no mundo e sim perto dos deuses. Ronaldo gargalhou de tanta satisfação. Mesmo sem forças para se mexer direito. Estava muito esgotado, machucado e com pouca comida. Mas o que importava era que agora era mais que um simples rapaz. Era o homem mais corajoso do Vale dos Conformados.

Lembrou-se também do seu desejo, deveria ser cuidadoso porque era apenas um. Ficou um bom tempo sentado, pois mal conseguia se mexer. Talvez pedisse um castelo de ouro com belas serviçais. Mas aí seriam dois desejos... Então poderia pedir que seu feito notável durasse a eternidade, mas isso provavelmente ocorreria de qualquer jeito - pelo menos se aqueles que lhe seguiam tivessem relatado tudo e não mentissem por inveja. Era difícil ter certeza dessas coisas e por isso Ronaldo pensou em pedir que todos no Vale dos Conformados soubessem que sua façanha teve êxito. Tentou se levantar para pedir isso, mas suas pernas ainda estavam muito doloridas. Olhou ao redor contemplando a solidão fúnebre do local. Uma pessoa não poderia viver ali, tão só... Mesmo sendo o homem mais respeitado, não havia ninguém para conversar e comentar sobre seu grande feito. Deveria descer e voltar para a comunidade. Mas sentia-se fraco, incapaz de conseguir descer. Mediu o prestígio absoluto e a solidão que enfrentaria se permanecesse ali. Com um suspiro profundo olhou para o céu e desejou “Me dê forças para descer...!”.

domingo, abril 27, 2008

DEUSES ALQUIMISTAS - Conto

Uma escultora começa a questinoar os motivos de sua cidade ser tão desconhecida. Nessa sede por respostas ela entrará numa busca insólita que termirá na Fuga da Sanidade.

DEUSES ALQUIMISTAS Por Rodrigo Moreno®


Com mãos sujas de barro e movimentos suaves Marina terminava mais uma escultura. Dessa vez uma mulher nua em uma pose que lembra as antigas estátuas gregas. Ainda faltava fazer os detalhes do rosto e do corpo. Mas, movida por uma curiosidade, colocou-a junta do homem nu que havia terminado há alguns dias. Pareciam Adão e Eva feitos do mesmo barro. No entanto, nunca teriam um contato físico, nem sequer uma troca de olhares, pois estavam fadados a permanecer em suas posições pela eternidade. Orgulhosa de seu próprio trabalho, a artesã contemplou o casal com um sorriso de admiração. Ao redor várias outras esculturas de pessoas, animais, casas, carros e cenas do cotidiano estavam espalhadas pelas mesas da oficina. Além de outros objetos úteis para o cotidiano como vasos, xícaras, pratos, etc. Todas não passavam dos vinte centímetros. Apesar do carinho que tinha por suas obras, todas teriam o mesmo destino: a loja de artesanato de Marcos, seu irmão. De lá sabe Deus pra onde. Pensando nisso colocava um preço considerado em cada trabalho. Era uma forma de valorizar sua arte e fazer o comprador ter consciência de cuidar bem de um produto que lhe custou caro. Marina levava em consideração a dificuldade que teve e, claro, o material. Não é tão fácil para ela conseguir tanto barro. Esse era o dia-a-dia de uma mulher simples em uma cidade mais simples ainda.

Seu mundo se resumia naquela cidadezinha, um pequeno espaço de terra afastado da urbanização que via na tv. Entretanto, Marina nunca reclamou. Se morasse em uma cidade grande, seu trabalho não seria tão valorizado e em pouco tempo deveria arranjar um emprego em algum escritório ou supermercado. O único problema daquela cidade é que sempre via as mesmas caras todos os dias. O mecânico Chico, o padre Ney, o padeiro Tonho, que sempre lhe dava uma nova cantada toda a vez que ia comprar pão, a Dona Rita, velha aposentada que passava as tardes na frente de casa fofocando com a Dona Zica, professora da única escola da cidade. Zica só dava aula pela manhã e tinha a tarde toda pra fofocar, atividade que se destacava. Entre outras pessoas... Eram sempre os mesmos vizinhos que pareciam nunca receber parentes ou amigos. Nem mesmo em épocas de férias as coisas mudavam. Nada de turistas, nem sequer aventureiros estrangeiros. As esculturas de Marina eram compradas pelas pessoas dali mesmo.

Era estranho, pois, modéstia à parte, era uma cidade bonita coberta de árvores, limpa, com praças que só não eram mais calmas por causa das gargalhadas de crianças brincando. Segurança também era um problema a menos na vida daquelas pessoas. A criminalidade era quase nula. Mas se os visitantes fossem interessados em aventuras, havia algumas belas cachoeiras tocando melodias líquidas que ecoavam pelas árvores fazendo perguntas para quebrar o silêncio, que eram respondidas pelo farfalhar das folhas quando batia uma brisa. Eram paraísos imaculados pela poluição desde a Criação.

Perguntas como “O que há de errado com a cidade?” ou “Por que nunca recebemos turistas?” começaram a latejar na mente de Mariana. A curiosidade era tanta que ela passou a dedicar a maior parte de seu tempo livre a procura de respostas. Consultou livros de história da biblioteca municipal, conversou com pessoas mais velhas, passeou pelo museu e até consultou o Google. Mas nada encontrou. Pelo menos, nada de relevante. Era como se Vila do Sossego, sua cidade, não existisse para o mundo. Isso é normal. Muitas cidades pequenas são desconhecidas.

Com a falta de sucesso nas pesquisas, esses questionamentos apenas aumentavam. Essa fome por respostas era tão grande que começou a trazer dores de cabeça para Marina. No início eram quase imperceptíveis, como se vespas voassem dentro de sua cabeça. No entanto, com cerca de uma semana, essas vespas se tornaram bolinhas de aço.

A dor latejante parecia causar rachaduras no crânio de Marina. Não poderia sair de casa naquela manhã e nada de trabalho até o médico permitir, foram essas as ordens de seu irmão. Ela não conseguia nem mexer a boca para questionar. O Doutor Joaquim, após examinar a paciente, disse que ela estava ardendo em febre e deveria permanecer em repouso por uns dois dias. Receitou uma medicação simples e entregou para Marcos que foi direto pra farmácia. Marcos era um segundo pai para a irmã mais nova.

Nos poucos minutos que Marina permaneceu sozinha, depois que o médico e seu irmão saíram, sentiu uma dor aguda no meio da testa. Parecia que algo perfurava o cérebro naquele ponto. Soltou gritos que só foram ouvidos pelo silêncio camuflado nas paredes da casa. O mesmo silêncio perene de um calabouço.

Marina pensou que ia morrer assim que chegasse ao limite daquela tortura. Percebeu o engano quando abstrações do seu inconsciente tomaram formas projetando-se na frente de seus olhos. Eram idéias caóticas que, por algum motivo, surgiram em sua mente nos últimos minutos. Olhos de gigantes observavam-na como cientistas observam o comportamento de um ratinho preso numa gaiola. Via apenas silhuetas cobertas por sombras, mas seus olhos analíticos estavam claros. Tão claros que pareciam vários pares de luas-cheias unidas em um círculo.

“Já estou começando a delirar...”, pensou ela. Subitamente a porta se abriu batendo na parede ao lado. Marcos entrou no quarto apavorado. Sem dúvida havia escutado os últimos gritos. “Marina! Marina! O que aconteceu?”, gritava ele, tremendo e preparando seu coração para encontrar a irmã quase desfalecida. Um certo alívio acalmou seu espírito quando viu Marina, ainda com forças, se contorcendo de dor com as mãos na cabeça. Parara de gritar. Apenas apertava os dentes e as pálpebras fortemente. Estava jogada no chão.

Marcos não teve tempo para pensar e agarrou sua irmã levantando-a e em seguida colocou-a na cama. “Gigantes! Cuidado! Gigantes!”, sussurrava ela como se estivesse tendo um pesadelo e não pudesse acordar. Marcos chamou o médico novamente. Doutor Joaquim chegou em menos de cinco minutos. Sua paciente havia parado de contorcer-se. Parecia calma, mas continuava delirando em murmúrios... “Cuidado com os Gigantes!”.

O médico disse que eram apenas delírios, ela não morreria por causa de uma febre. Disse que Marina deveria passar uns dias em casa e não poderia ficar sozinha. Marcos já estava pensando em quem contrataria para observar sua irmã quando saísse para o trabalho. Talvez a Dona Rita estivesse disposta, afinal ela não tinha mais nada pra fazer a não ser ficar de fofoca a tarde toda.

Dona Rita aceitou com um sorriso abençoado, típico de velhinhas bondosas e prestativas. “É claro que cuidarei da sua irmãzinha. Será um prazer!”, disse ela, “Não se importa se eu convidar a Zica pra me fazer companhia, se importa? Temos muito que conversar...”, pediu a aposentada. “Claro que não... Fiquem à vontade!”, disse Marcos.

Dizer que elas duas ficaram literalmente de olho na Marina seria um exagero. Passaram as tardes fofocando e vendo tv. Vez por outra uma delas ia ao quarto da moça para ver seu estado. Dona Rita fez um chá que aprendeu com sua mãe para a febre abaixar. Mais um esforço em vão. A febre parecia aumentar, e os delírios continuavam. Sempre sobre gigantes de olhos que parecem luas. As duas senhoras assustavam-se com aquilo e começaram a acreditar que tinham feito alguma bruxaria pra moça. Benzeram-se rapidamente. Passaram a fazer orações diariamente perto do corpo de Marina. Esta ouvia de longe murmúrios de pessoas rezando. No entanto, essas rezas eram abafadas pelas vozes estrondosas dos gigantes conversando. Parecia português, mas, pela grande vibração, as palavras eram incompreensíveis como bombas explodindo os tímpanos de uma frágil criatura.

Não se conteve. Correu para a rua sendo seguida pelas suas duas protetoras. Gritava como louca no meio da cidade. Muitos riam, outros contemplavam assustados. “Gigantes! Protejam-se dos gigantes!”, gritava ela. As duas senhoras que a seguiram assustaram-se e preferiram manter distância. Alguém foi correndo avisar a Marcos que sua irmã havia pirado de vez. Marcos deixou a loja na responsabilidade de seu ajudante e saiu às pressas. Logo em seguida correu em direção a sua irmã que berrava loucuras no meio da praça, rodeada de curiosos.

Marina contemplava o infinito absoluto naquele manto escuro do céu. “Olhem as luas!”, gritou ela novamente. Muitos que estavam presentes olharam para cima e viram apenas estrelas que brilhavam como diamantes. Luas? Só existia uma. Todos puderam comprovar. “As luas são os olhos deles! Eles estão nos observando!”, insistiu Marina. Em seus olhos refletiam-se vários objetos celestes em forma de globos brilhando. Em seguida a silhueta de um par de mãos gigantes movia-se pelo céu. “Mãos! Olhem as mãos!”, gritou Marina apontando com o dedo para o alto.

Novamente ninguém viu nada. Mas Marina continuava insistindo até ser repreendida por seu irmão. “Marina! Para com isso pelamordedeus!”, gritou Marcos. Em seguida segurou-a pelos braços. “Vou te levar pra casa agora!”. “Me solta! Vocês têm que me ouvir! Os gigantes vão nos matar!”. Aos gritos ela foi levada pra dentro de casa. Uma aglomeração de pessoas se formou na porta da frente. O padre achava que ela poderia estar possuída pelo Demônio. Alguns se benzeram ao ouvir essa hipótese.

Da janela do quarto, Marina via movimentos estranhos no céu. Jurava para seu irmão que eram mãos titânicas. Ele dizia que eram apenas delírios, que ela tava doente e deveria parar de bancar a maluca no meio da rua. Marcos saiu do quarto e trancou a porta. Foi até a frente da casa pedir para as pessoas irem embora porque já estava tudo resolvido e Marina ficaria bem. Alguns ignoravam seu pedido fazendo perguntas indiscretas. “Ela tá possuída pelo Inimigo?” , “Ela ficou realmente doida?”, entre outras...

Marcos ignorava as perguntas – mesmo sentindo-se ofendido – e insistia para que todos fossem embora. Quando, subitamente, um estrondo seco de algo cedendo e um grito vindo de dentro da casa suscitaram um silêncio na multidão agitada que durou alguns segundos. “Marina!”, gritou Marcos correndo para dentro. Os comentários curiosos e indiscretos na aglomeração de pessoas começaram novamente. Todos pareciam mais assustados.

Marcos abriu a porta com tremenda força que quase arromba. Marina não se encontrava mais lá. Olhou a janela e surpreendeu-se ao ver que não existia mais. No lugar estava um buraco enorme como se um carro estive entrado. O que restou da antiga janela estava em pedaços em meio aos restos da parede no chão. Dessa vez foi Marcos que pareceu enlouquecer. Gritava pela irmã. Saiu pelas as ruas à procura dela, seguido da multidão que parecia mais preocupada em querer encontrar a moça viva do que por mera curiosidade.

A busca durou alguns dias que pareceram anos até que finalmente um dos moradores, Zé Maria, encontrou a moça perto de seu quintal. Estava toda suja de lama e nua como a natureza a criou. Foi levada para casa e afirmava não se lembrar de nada. Nem mesmo do inicio da febre. Tudo que se lembrava era que estava trabalhando na oficina. O importante era que sua saúde encontrava-se perfeita, nem marcas de qualquer forma de violência, nem ferimentos acidentais que poderia ter sofrido, e isso quem confirmou foi o Doutor Joaquim. A febre e as dores de cabeça também haviam passado. O mistério desse desaparecimento ficou apenas no imaginário popular de Vila do Sossego. Poderiam ser alienígenas? Demônios? Algum psicopata? Por que não a machucaram? A verdade encontrava-se bem longe dali. Talvez não tão longe, bastava apenas olhar para o céu...

Em um laboratório em algum lugar sem nome, um grupo de cientistas estuda o comportamento de suas novas criações. Homens minúsculos, do tamanho de uma barata, criados a partir do barro. Basearam-se por fórmulas encontradas em livros de alquimia que permaneceram escondidos durante a Inquisição. Havia centenas criações defeituosas que se encontravam espalhados em vidros. Eram seres mal-acabados. Alguns tinham uma perna ou um braço maior que seu par, outros uma orelha que parecia de elefante, pescoços longos demais, alguns possuíam duas ou três cabeças e seis braços - talvez tenham se misturado a outros homens no momento da produção quando o barro ainda estava mole. Eram os seres humanos (se é que se pode chamar assim) mais horríveis criados naquele laboratório. No entanto, em meio a essa legião de aberrações existia uma pessoa que não aparentava defeito físico algum. Na verdade seu único defeito era a percepção. Algo em seu cérebro lhe deu a capacidade de enxergar mais do que devia. Era uma mulher que gritava enlouquecida. Dava pra ouvir de longe os seus gritos agudos e irritantes como os de um passarinho. Tiveram que colocar uma cópia sua na sociedade onde vivia, uma cidadezinha muito semelhante a essas cidades de interior. De longe parecia uma maquete.

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” Gênesis cap. 1 : 26

segunda-feira, março 10, 2008

Fuga da Sanidade - aprovado pela Fumbel

Após cinco anos na frente do computador escrevendo toda vez que surgia uma idéia, finalmente vou conseguir publicar meu livro - Fuga da Sanidade. Meu projeto foi aporvado pela Lei Tó Teixeira. Essa foi apenas mais uma etapa, ainda preciso buscar patrocínio. Mas as coisas funcionam assim mesmo. como já dizia Jack, O Estripador "Vamos por partes!"
Pretendo que Fuga da Sanidade seja distribuído em todo país, mas isso ainda vai depender de quanto vou conseguir dos patrocinadores. Gostaria de enfatizar que o livro consiste em 14 contos fantásticos, incluindo terror, realismo fantástico e ficção científica. Alguns contos já foram publicados no blog, mas todos foram revisados diversas vezes. A narrativa está muito melhor e as histórias também.
Sem querer perder a modéstia, mas eu acredito no meu talento e quando estiver lá em cima, estenderei a mão para quem me ajudou, agradecerei quem me criticou e ignorarei quem me ignorou.

Já estou com idéias para futuros livros, mas isso é outra história...

[]'s

quarta-feira, janeiro 02, 2008

2008

Mais um ano que se foi... levando certos grilhões frívolos que não me deixavam seguir em frente... enfim, estou muito bem e aguardando o a responta da FUMBEL para publicar meu livro - Fuga da Sanidade. Esse ano vai ser interessante...
Outra novidade é que finalmente me formei em Adm com Habilitação em Marketing. Foram 4 anos e meio de histórias na FAP e mesmo feliz por ter concluído minha graduação, vou sentir saudades de muitas coisas... mas tenho que continuar seguindo meu caminho, fazer concurso público, pós-graduação, etc...
Estou ansioso para ver o que me espera daqui pra frente.

PS: Geralmente posto contos no meu blog, mas já que nao tenho nenhum novo postei essa novidade, que para muitos é supérflua, só para não deixar meu blog preso em 2007.

[]'s

sábado, setembro 08, 2007

UM EXEMPLO DE SUCESSO - Conto

Poucas pessoas no mundo possuem tanta determinação e sorte como Marta, uma pessoa cheia de virtudes e disposta a ajudar a todos. Porém, ela está prestes a descobrir sua verdadeira natureza na Fuga da Sanidade.


UM EXEMPLO DE SUCESSO Por Rodrigo Moreno®


Existem pessoas que realmente nasceram com o Universo como criado. Como grande exemplo podemos citar Marta, uma mulher que nasceu pra bilhar, como definem alguns e sem dúvida que não estão errados, pois essa grande executiva tem uma vida de dar inveja a muitos. Filha única de um grande empresário, Marta sempre teve todas as oportunidades que o mundo e o dinheiro poderia oferecer. Estudou em uma das escolas mais conceituadas (e mais caras!) da cidade. Desde os cinco anos tinha aulas particulares de piano, balé e inglês, tornando-se prodigiosa em todas essas três áreas. Apesar de poder escolher ser uma bailarina de sucesso ou uma grande pianista, Marta optou pela faculdade de Administração e aos vinte e cinco anos terminara de concluir seu Mestrado nos Estados Unidos. Marta sempre fora uma pessoa muito inteligente e apesar dos “mimos” dos pais, sempre buscara independência.

Todos que a conheceram se surpreendiam com sua fabulosa inteligência e grande carisma. Todos a amavam e queriam ser seus amigos, ela, amável por natureza, retribuía toda a admiração das pessoas com toda a atenção, ternura e complacência que lhe era capaz. Sempre sorrindo com o mais belo sorriso que despertava ainda mais o afeto de alguns o os sentimentos secretos e puros de alguns admiradores apaixonados. Era comum que uma mulher como ela tivesse tantos pretendentes, pois, além de bonita, determinada e inteligente, aquele sorriso perfeito expressava toda a franqueza de sua alma abençoada. Era a mulher perfeita para todos.

Entretanto, para a tristeza de muitos, após voltar do exterior e assumir o cargo de vice-presidenta da grande organização do pai, Marta começou um relacionamento sério com Cristóvão, um advogado exemplar e bem-sucedido e também cercado de muitas admiradoras. Aos dois anos juntos casaram-se e tiveram um casal de filhos gêmeos. Não se sabe se a inteligência dos filhos veio do pai a da mãe, mas isso não importa, pois Marta se orgulhara muito dos seus pequenos herdeiros. Thomaz, apesar de um pouco levado, o que era comum na sua idade, era o melhor aluno da turma e desde aquela idade já demonstrava um precoce espírito de liderança, o que provavelmente o tornaria presidente da organização do avô um dia. Natália tinha puxado o lado artístico da mãe e demonstrava um grande talento pro canto, piano e balé.

Marta tinha a vida que todas as mulheres sonharam ter, e apesar de todo o esforço que teve, sabia que não seria preciso tanto, pois o Universo conspirava a seu favor. Mas como nada pode ser perfeito, uma coisa a incomodava: falta de tempo livre. Ela já se acostumara a trabalhar bastante, mas às vezes tinha aquela breve sensação de que sua vida se resumira a isto. Ela sempre arranjava tempo para se dedicar à família, mas no fundo queria um pouco de tempo sozinha, para fugir um pouco da rotina cansativa e quem sabe ler um romance ou assistir um filme sozinha.

Cristóvão percebeu a inquietação da esposa e após concluir que Marta ansiava (e precisava) passar um tempo sozinha propôs levar os filhos para passar o fim-de-semana na fazenda dos avôs paternos. As crianças adoraram a idéia, pois já fazia um bom tempo que não iam lá e Marta adorou mais ainda. Então eles foram sábado pela manhã. Marta também deu uma folga para os empregados que trabalhavam aos domingos e encontrava-se completamente só e livre dentro daquela casa grande. Passou a manhã de domingo tocando piano como não fazia há meses, depois leu o jornal, conversou com algumas amigas pela Internet, leu algumas revistas femininas e fez seu próprio almoço. Pensou em pedir uma pizza, mas, como não cozinhava há muito tempo, decidiu por em prática seus conhecimentos de dona de casa e ver se ainda lhe restara algum.

Após o almoço debruçou-se na cama e ligou o grande televisor de tela plana. Mesmo com os diversos canais de TV á cabo, nenhum parecia lhe interessar, por isso ignorou, musicais, filmes antigos e desenhos animados e quando estava preste a desligar e ir dormir viu o parecia ser um documentário sobre moradores de rua. Porém, percebeu que não havia repórter algum e tão pouco um narrador. Tudo que via era um bairro imundo através da câmera, onde mendigos se agrupavam perto de valas e lixões em becos imundos. Aquela visão repugnante a angustiava e só de pensar na condição de vida daquelas pessoas sentia seus pelos se arrepiarem e uma efêmera ânsia de vômito pairava sobre sua cabeça. Entretanto, aquela programação, apesar de repulsiva, despertara sua curiosidade a respeito daquelas pessoas. Será que elas nunca foram alguém na vida? Será que apesar delas serem um grande exemplo de fracasso e falta de oportunidades isso também não as torna um exemplo de sobrevivência?

Marta se compadecia com pessoas que carregavam na vida o fardo da extrema pobreza. Apesar de seu pai nunca ter tido um espírito muito filantrópico, preocupando-se apenas em ajudar as pessoas carentes em projetos de responsabilidade social, Marta não puxara esse egoísmo e individualismo. Graças a ela, muitos outros projetos filantropos (que para seu pai deveriam ser chamados de responsabilidade social) tiveram sucesso e graças a ela muitas crianças com a idade de seus filhos e que mal sabiam ler e escrever e todos os dias dormiam de barriga vazia, hoje têm quatro refeições por dia, estudam nas escolas financiadas pela organização e dormem em camas macias. Muitos moradores de rua também são agraciados com o espírito humanitário de Marta que lhes dá de comer em todas as datas festivas como o Natal e a Páscoa. Sem dúvida que Marta já recebeu muitas propostas para entrar para a política, mas nunca quis se envolver com a sociedade dessa maneira, optando por ajudar apenas do seu jeito, levando o nome e a marca da organização de seu pai para uma das empresas mais humanitárias do país.

Mesmo com toda essa complacência pelo sofrimento daquelas pessoas, a educação nobre de Marta não poderia deixar de sentir uma grande repulsa pelo trauma causado pela injustiça da sociedade, que estava expresso na aparência suja e fétida daqueles mendigos e agradece quando a câmera olha para os lados e sai daquele beco imundo. Ela começa a cambalear como se o cameraman estivesse bêbado. Aproxima-se de um homem bem vestido com um terno não tão caro e empunhando uma mala preta na calçada esperando o sinal fechar. Ele olha para a câmera e com os mesmos olhos de desdém que via em seu pai quando algum morador de rua se aproximava para pedir dinheiro, diz “Quer dinheiro? Vai procurar o que fazê?”. Nesse instante o sinal se abre e ele atravessa a faixa apressado. A câmera então muda de rumo e passeia pela calçada ainda cambaleando. Duas jovens moças segurando cadernos e livros vêm na outra direção conversando. Uma delas reclama de um odor insuportável ao redor. Ao olhar para frente vê a câmera e puxa a amiga para o lado afastando-se com uma expressão no rosto de repulsa e um pouco de medo. A câmera continua seguindo pela calçada até ser surpreendida por uma garotinha que oferece alguns trocados ao cameraman. Este pega e Marta percebe que sua mão suja é fina coma a de uma mulher. “Isso é pra senhora.”, diz a garotinha entregando o dinheiro. Em seguida vai ao encontro da mãe no outro lado da rua e leva uma grande repreendida da mesma. Marta pode ouvir de longe a mãe brigando com a filha e mandando ela nunca mais se afastar dela e nem falar com estranhos. A câmera dá mais algumas voltas e desce até um grande lixão perto de um bairro humilde onde outros moradores de rua se esforçam para encontrar um pouco de comida estragada para enganar a fome. Um deles olha para a câmera e sorri com dentes amarelados e corroído por cáries. Seu rosto parece familiar. “Olhem pessoal! Ela voltou! Hehehe!”. “Marta! Pensei que estivesse morta!”, diz outra moradora de rua, uma senhora gorda e negra. “Chegou na hora certa! Tem muito lixo bom hoje!”, disse sorrindo o morador que a reconhecera. Seu nome era Chico e a senhora eles chamavam de Velha. Também estavam presentes Zé, Espirro, Urubu, e todos os outros mendigos locais, alguns até sem nome ou apelido definido. Marta gradualmente vai sentindo a falta do conforto da sua cama de casal e do ar-condicionado e percebe que está usando como vestimenta trapos velhos e um par de sandálias velhas diferentes uma da outra. Sente o suor insuportável do meio-dia, mas ela parece já estar acostumada e sente um fedor nauseante exalando da sua pele mal cuidada, suja e cheia de feridas causada pro mosquitos. “Isso não pode ser real”, pensa ela, “O que eu estou fazendo aqui?!”, grita ela apavorada, “Onde está minha casa enorme, minha TV de tela plana e todo o conforto que eu tenho direito?!”. “Lá vem ela com esse papo de novo!Hehehe”, diz o Chico e os outros mendigos começam a gargalhar. “Por que vocês ousam rir de mim?! Depois de tudo que eu fiz pra vocês! É assim que me agradecem?! Pois saibam que eu sou muito rica! Meu pai é...”, antes que pudesse concluir sua frase a Velha a interrompe concluindo para ela “ Um grande empresário! Você sempre diz isso quando toma um porre!Ahahaha”, “Certo Senhora Grande Executiva, o que vai trazer pare esses pobres famintos nesse natal? Um peru assado? Ou seria um urubu assado? Hahaha”, diz Espirro sarcasticamente. “Não, vocês não entendem! Eu sou mesmo uma grande executiva! Sou casado com um ADEVOGADO muito rico também e tenho dois fio bunito!Eu falo inglês, toco piano, sou bailarina...”

Marta tentava convencer os outros mendigos que seus delírios causados pela fome e pela cachaça barata eram reais ao mesmo tempo em que tentava inutilmente acordar daquele pesadelo que se tornava cada vez mais real à medida que o efeito do álcool se esvaía e a barriga voltava a mendigar um prato de comida. Os outros mendigos apenas riam mais uma vez daquela moradora de rua que sonhava ser uma rainha.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Conto - HERÓI ?

Leo é um adolescente diferente. Ele tem a habilidade de prever futuros trágicos. Entretanto, não pode fazer nada para mudar o futuro e só lhe resta lamentar o fim trágico das vítimas. Porém, ao prever o assassinato de uma pessoa conhecida decide salvá-la, mas descobrirá que isso não será fácil na Fuga da Sanidade.

HERÓI ? Por Rodrigo Moreno®

“Meu filho! Eu já disse que não tem ninguém lá!”, gritou a mãe de Leo, sua voz já estava ficando rouca e sua paciência estava se esvaindo. “Calma querida... ta tudo bem...”, consolou o pai. À frente de Leo, o garoto loiro com cerca de 7 anos continuava gritando pedindo socorro. “Eu tenho que ajudá-lo! Alguma coisa vai acontecer ou já deve estar acontecendo! Esse menino precisa de mim!”, insistiu Leo. Entretanto, a sua frente os seus pais só viam a cama desarrumada do filho e alguns pôsteres de bandas de rock na parede.

Sua mãe, com os olhos vermelhos e lagrimando, fitou-o mais uma vez, com um olhar que expressava compaixão e decepção, antes de deitar o rosto no ombro do marido que a consolava. “O Leo enlouqueceu... oh, meu Deus...!”, sussurrou ela. Leo continuava apavorado, mas não ignorava o olhar esquisito de seus pais observando-o como se fosse algum doente em estado terminal. Ele gostaria muito que sua mãe estivesse certa. Gostaria muito de estar realmente louco, mas pelas poucas experiências que teve com precognição tem certeza de que tudo que prever irá se concretizar uma hora ou outra.

Infelizmente nunca previu coisas boas como o resultado da loto ou questões de provas. Suas previsões sempre se limitaram a terríveis tragédias, como acidentes e assassinatos. Nunca de pessoas conhecidas. Mesmo assim, sentia-se na obrigação de tentar evitar. Entretanto, era só um garoto de 16 anos que ainda dava satisfação aos pais e não poderia sair por aí bancando um vigilante como nas revistas em quadrinhos. Além disso, é magro e não é um exímio lutador. Chamar a polícia também estava fora de cogitação. Que policial em sã consciência acreditaria em tal absurdo, ainda mais vindo de um garoto como ele? Aliás, quem acreditaria? Nem seus próprios pais acreditavam! Depois de terem visto o filho jurar que um garotinho gritava pedindo socorro o levaram num psicólogo em seguida num psiquiatra e depois ele passou uns dias numa clínica psiquiátrica.

Mas suas visões continuavam, só que ele aprendeu a disfarçar mais para enganar os pais e os médicos e poder voltar para casa. Teve êxito em seu plano, mas mesmo assim o peso da responsabilidade de seu poder paranormal pairava sobre suas costas. Sentia-se em dívida com a humanidade por não poder evitar as tragédias e lamentava como um médico quando perde um paciente. Quantas famílias já sofreram só por ele ser um garoto totalmente dependente? O que significava aquele dom se ele não poderia usar? Tudo que poderia fazer era se desculpar em pensamento com as vítimas na esperança quase perdida de que elas o ouvissem.

A angústia causada pela sua crise “pseudo-heróica” chegou no ápice quando na última noite seus sonhos lhe trouxeram mais uma visão trágica do futuro. Uma garota, com mais ou menos a sua idade, gritava desesperada pedindo socorro. Seus olhos expressavam o medo e a agonia da alma que se traduzia em lágrimas que deslizavam pelo rosto coberto de hematomas. Ela fitava o rosto do carrasco pedindo misericórdia. Uma negociação silenciosa pela vida era feita desesperadamente naquele momento. Mas o objetivo dele não era negociar. Não dava para ver sua fisionomia. Apenas a sombra projetava na parede denunciava um homem. Suas mãos agarraram o pescoço frágil dela que tentava lutar inutilmente. Lutou até suas forças se esvaírem e se entregar à morte iminente. Nada que Leo não tinha visto antes em outras visões, com outras moças, mas dessa vez ele conhecia a vítima. Seu nome era Anna e morava há alguns quarteirões de distância da sua casa. Suas mães se davam muito bem, porém eles só conversaram três vezes. Duas na igreja e uma quando se encontraram no ônibus. “Ela é uma garota legal, tem planos... ela não deve morrer...”, pensa Leo “Acho que dessa vez eu consigo evitar! Eu a conheço, então se ficar mais íntimo posso ajudá-la!”, dessa vez já falava seus pensamentos em voz baixa olhando-se no espelho do banheiro como se dialogasse com seu reflexo.

No dia seguinte encontrou-a indo para a parada de ônibus pela manhã. Era época de chuva. O dia estava frio e as nuvens anunciavam a próxima chuva que começava com um simples chuvisco. Ela segurava os cadernos e apressava os passos para não se molhar. Ele por sorte, não esquecera o guarda-chuva como da última vez e apressou também os passos para chegar até ela e oferecer uma carona. Ela, sorrindo gentilmente, aceitou. “Obrigada! Se eu molhar esses livros meu pai me mata!”, agradeceu em tom de brincadeira. “Então eu sou o seu salvador!”, disse Leo brincando também, “Ahahah. Talvez...”.

Foram conversando até a parada e por sorte pegaram o mesmo ônibus. Em cerca de alguns minutos já conversavam sem tantas formalidades como se fossem grandes amigos de infância. Compararam gostos em comum e contaram historias pessoais. Quando a parada onde Anna desceria estava próxima ela se levantou e eles marcaram de pegar o mesmo ônibus no dia seguinte. Uma semana depois viajando juntos, decidiram ir ao cinema. Foi então que começaram a sair. Cerca de um mês já estavam no inicio de um relacionamento amoroso.

Suas famílias aprovavam, pois, para eles, tanto Leo quanto Anna eram “Bons partidos!”. O que eles não imaginavam é que duraria tanto. Terminaram o colegial e entraram na faculdade juntos. Raramente brigavam e estava claro que a probabilidade de continuar no casamento era maior do que de terminarem. Ele se formou como psicólogo e ela dentista. Foram viver juntos e depois dela engravidar decidiram alegrar os parentes com o tão sonhado casamento. Leo se orgulhava da esposa, pois mesmo com 25 anos ela mantinha a aparência daquela garota de 16 que ele dera uma carona no seu guarda-chuva.

Enquanto as suas visões... ele quase não as tinha. Mas não se importava mais com isso. Tudo que queria era ser feliz. Mais feliz do que já era. Claro que nem tudo foi uma grande felicidade como ele imaginara. Ainda tinha o assassino de Anna que deveria ser combatido. Leo atenciosamente observava os ex-namorados e alguns amigos que ele não gostava. Fazia o possível para não parecer ciumento.

Quando eles estavam com um ano de namoro. Leo foi à casa de Anna como prometera. Não haviam marcado nada antes. Ele apenas recebeu um telefonema dela pedindo para que ele passasse lá porque estava só e com medo. Não medo de alguém específico segundo ela, “Apenas medo de ficar sozinha...”, disse ela calmamente ao telefone. “Talvez ela esteja afim de ver um filme ou fazer sexo. Ou os dois!”, pensou Leo. Arrumou-se bem e se apressou ansioso porque “Essa noite promete!”, disse ele sorrindo satisfeito enquanto penteava o cabelo se olhando no espelho. Mas sua opinião mudou e sua felicidade e ânsia transformaram-se em medo e preocupação quando chegou na frente da casa dela e encontrou a porta entreaberta. Ela estava gritando com alguém. “Não, eu não quero! Me deixa em paz! Eu juro que chamo a polícia!”, gritava ela. “Não vai demorar nada... mas se não quiser eu te mato agora!”, respondeu uma voz masculina e furiosa. “Você vai ser minha essa noite!”.

Leo não se conteve e correu pra dentro da casa. Ao entrar viu as costas de um homem com cerca de 1,80. Na frente dele se encontrava Anna com uma expressão de medo no rosto, afastando-se a passos lentos, mas pronta para correr se fosse necessário. Eles não perceberam a entrada de Leo. “Me deixe em paz!”, dizia Anna com uma voz trêmula e tentando gritar. Leo correu e pulou em cima do homem. “Te afasta dela!”. Uma briga entre eles dois foi travada. Não houve socos nem pontapés, apenas mediam forças tentando imobilizar um ao outro. Apesar do homem ser mais forte, Leo, movido pela raiva, demonstrou uma força que nem ele mesmo conhecia. Anna começou a gritar e em seguida chegaram os vizinhos e rederam o homem. Depois chamaram a polícia e os pais de Anna. Sua mãe não conteve o desespero e estapeou o rosto do homem várias vezes até ser impedida pelos policiais. Não por vingança, mas para repreendê-lo, pois na verdade ele era o seu irmão mais novo. Isso chocou a todos que ficaram sabendo que Anna era assediada sexualmente pelo tio há alguns anos. Leo ficou decepcionada por ela nunca ter comentado nada, mas não pediu nenhuma satisfação. O importante era que ele conseguiu salvá-la. Esse pesadelo ficou no passado eles estavam felizes esperando o primeiro filho.

Quando Ruan nasceu, Leo decidiu abrir sua própria clínica. Tiveram que fazer algumas despesas, mas antes do segundo aniversário do filho, já estavam bem estabilizados. Mudaram para uma casa melhor e maior. Dois carros do ano na garagem e aos três anos Ruan se preparava para estudar em um dos colégios mais caros e bem conceituados da cidade. Leo tinha tudo que queria e se sentia o homem mais sortudo do mundo. Vivia feliz e era bem visto pelos amigos. Sempre fora um homem de temperamento calmo, porém em uma festa de casamento de uma grande amiga de Anna, descobriu seu verdadeiro ponto fraco. Anna reencontrou um antigo namorado e eles ficaram conversando a noite inteira. Não que fosse ciúmes diria Leo, mas eles passaram a noite muito juntos e ela quase não deu atenção ao marido. No carro, Leo calmamente tentou conversar sobre esse ex-namorado. “Não vai dizer que tá com ciúmes?”, disse Anna em tom de brincadeira. “Claro que não... eu confio muito em você, mas bom... poderia ter me dado mais atenção. Tive que aturar aqueles sogros da sua amiga a noite toda.”, respondeu Leo disfarçando a seriedade no mesmo tom de brincadeira. As palavras foram perdendo a calma e em alguns minutos estavam prestes a ter uma grande discussão se não fosse por Leo se desculpar. Eles decidiram esquecer aquele desentendimento. Leo achava que poderia, mas estava enganado. Seu próprio conhecimento sobre a psique o enganou.

Depois daquele dia passou a fazer perguntas sobre os colegas de trabalho de Anna, quem era aquele amigo que lhe deixa em casa todas as sextas e por que ela conversava muito com o vizinho da frente. Aos poucos seu ciúme foi ter tornando gradativamente em um possível transtorno psicológico. Ele sabia disso, mas não conseguia controlar, pois no fundo tinha medo de que Anna o trocasse por alguém melhor. Isso arruinaria sua vida. Seu filho era muito novo para ver os pais se separarem e poderia ficar traumatizado ou ter outros problemas, até mesmo sociais! Leo não poderia deixar isso acontecer.

Desnecessário dizer que esse ciúme gerava grandes discussões entre o casal. Ruan, que já tinha 7 anos, observava tudo assustado. Anna já não agüentava mais aquele tormento e pediu para Leo procurar ajuda profissional. Ele sempre prometera que ia, mas nunca cumpria. Hoje ele lamenta muito isso, pois quando viu um homem saindo de sua casa quando chegava para o almoço não conteve o ciúme e entrou gritando com Anna pedindo satisfação. Ela disse que era apenas o encanador que havia chamado para consertar a pia. “Acha que eu vou acreditar nessa história sua vagabunda!”, gritou Leo e em seguida estapeou-a no rosto. Assustada ela tentou escapar, mas Leo a agarrou pela cintura e arremessou-a contra a parede. Em seguida socou-a várias vezes antes de suspendê-la pelo pescoço com as duas mãos. “Não!”, gritou Ruan que assistia tudo. “Socorro!”, continuo ele. Leo ignorou os gritos do filho e o monstro que se escondia atrás de seu rosto amigável e sorridente projetou-se aos olhos de Anna que perdia o ar sem entender o porque de todo aquele sofrimento. Eles eram tão felizes... Tinham um filho bonito, loiro como o pai. Ruan sempre fora uma criança alegre, mas agora gritava ao vê-la morrer. Por quê tudo isso? Inveja de terceiros que eram infelizes e desejavam pelos menos um terço de sua felicidade? Esses e outros pensamentos passavam rápidos por sua cabeça antes de perder a capacidade de raciocinar. Aos poucos Anna sentia seu fôlego chegar ao fim e a última cena que pôde ver foi o filho gritando a alguns metros atrás daquele par de olhos bestiais do homem que um dia ela pensou ser seu herói, mas agora era o carrasco.

Após o homicídio a besta desincorporou da consciência de Leo que foi despertado pelos gritos do filho. Ao olhar para ele lembrou a visão do garotinho que gritava pedindo para socorrê-lo. Também se lembrou do sonho premonitório que via Anna ser assassinada. Foi preso e internado num sanatório após provar sua condição mental. Ruan foi morar com os avós maternos e nunca mais foi uma criança normal. Entrou em depressão profunda.

Até hoje, Leo se culpa por tudo. Sempre quis ajudar as pessoas com suas visões achando ser um herói. Nunca imaginou que na verdade era o grande vilão, um monstro que deveria ficar preso para sempre, senão pelas grades físicas, mas pelas grades psíquicas da eterna culpa.