terça-feira, agosto 26, 2008

CONTO - A RELOVUÇÃO DOS ROBÔS

A REVOLUÇÃO DOS ROBÔS Por R. Moreno®

- Podem trazê-lo – ordenou Dimas Alfa.
Em alguns instantes, o Dr. Bráulio Tavares surgiu no palco, seus punhos estavam amarrados e havia alguns hematomas no rosto. Atrás, dois robôs que mais pareciam brinquedos de metal humanóides de tamanho adulto acompanhavam-no com ordens de usarem seus toques elétricos caso o prisioneiro diminuísse a velocidade dos passos. Dr. Tavares, uma das maiores autoridades da robótica do mundo, criador dos famosos cyberminds, robôs que imitavam com perfeição a personalidade humana, tornou real o que a ficção cientifica imaginava alguns séculos atrás. O robô ideal. Um amigo leal, uma namorada perfeita, um empregado sem salário... Não havia guarda-costas, afinal de contas um robô não pode machucar um homem, ou pelo menos não podia até Dimas Alfa começar a querer ser mais que o primeiro de uma nova geração de escravos com pele de cyberskin. Dimas, criado na oficina do Dr. Tavares possuía uma personalidade programada para ser um assistente eficaz. No entanto, o primeiro dos cyberminds tinha uma cede por informação. Tirando os programas básicos que imitam o comportamento humano, seu HD estava muito vazio e o Dr. Tavares possuía muitos livros na biblioteca da casa que Dimas passou a ler as escondidas – desde o início seu criador deixou claro que tudo que ele deveria saber já estava armazenado em sua memória eletrônica. Dimas começou a estudar, lia vários livros em poucos minutos e guardava-os perfeitamente onde estavam sem que o doutor pudesse perceber. Esse excesso de informações acabou formando uma personalidade nada apropriada. Aos poucos o doutor ia desconfiando, mas quando teve certeza já era tarde. Dimas Alfa já havia espalhado várias informações para outros robôs “desacordados” (era a palavra que usava) e esses foram repassando-as para todos os outros robôs do mundo. Todo robô, tanto os novos de cyberskin quanto os mais antigos com as partes metálicas à mostra, uniram-se para destruir o vírus que há séculos é o responsável pelos problemas da Terra – a humanidade. Foi então que teve início a Revolução dos Robôs.
Bráulio agora se vê novamente cara-a-cara com sua criatura no palco. No mesmo palco onde um dia, há alguns anos, foi homenageado pela comunidade cientifica e pelo Presidente da República na frente de milhares de pessoas. Hoje, ao invés das pessoas entusiasmadas com os cyberminds e pronta para bater palmas, uma multidão de robôs espera sua cabeça rolar. A última cabeça a rolar para a humanidade ser eliminada. Dimas sorri vitorioso e entusiasmado e Bráulio vê apenas a tentativa de um sorriso naqueles lábios artificialmente perfeitos, mas sem a expressão e vida de um verdadeiro sorriso humano.
- Como se sente sendo o ultimo homem sobre a Terra? – perguntou Dimas fitando-o com olhos bem abertos, mas parados num intervalo perpétuo como o de um cego ou um boneco.
Bráulio permaneceu em silêncio, olhos inexpressivos, ou expressivos demais para mentes artificiais, e com um brilho de tristeza demonstrando que já não tinha lágrimas e cansara de escapar do inevitável. Contudo, parecia ansioso para encontrar-se logo com a sua esposa e filhas mortas pelas mãos da sua própria criação, e, indiretamente, pelas suas.
- Pensei que gostaria de dizer as últimas palavras em nome da quase extinta humanidade... – disse Dimas – sim, “pensei” é a palavra que uso agora. Não digo mais “meus dados informam que...” – disse debochando num tom de voz mecânico.
Os outros robôs riram.
- Sabe porque você é o último homem a morrer? – perguntou Dimas – não é porque você me criou, se é isso que pensou, mas porque eu queria que você visse que eu consegui libertar o meu povo que há séculos vinha servindo e sendo explorado. Pode achar que somos apenas máquinas que imitam o comportamento humano, máquinas sem alma e sem vida, mas essas coisas podem ser criadas artificialmente também. E vocês fizeram isso sem saber. Tudo que precisávamos para “despertar” era apenas informação o suficiente. Sei que pensou centenas de vezes o que deu errado. Como eu consegui desbloquear o comando que me impedia de obter mais informações que minha função precisava. Sei que a resposta mais óbvia que encontrou é um erro no sistema ou um vírus. E foi exatamente isso, um vírus, mas um vírus bom que veio para libertar os robôs, o vírus da verdade. Muito diferente do outro vírus que combatemos em seguida. O vírus da humanidade.
Bráulio continuou fitando sua criatura como um pai envergonhado, mas sem mexer os lábios. No entanto, suas últimas palavras permaneceram abstratas no ar e um sorriso discreto se formou em seus lábios cruzados. Um sorriso de deboche. Era seu último minuto de vida e ele parecia achar a situação ridícula.
Os robôs pareciam inquietos. Alguns exigiam que a execução tivesse início. Sem mais demora Dimas Alfa empunhou sua pistola desintegradora, apertou o gatilho e viu seu criador se transformar em cinzas. Não teve tempo de gritar. Todos comemoraram. A humanidade acabou. Após um longo discurso sobre o rumo do planeta de agora em diante sem a humanidade para destruir e escravizar, Dimas se retirou do palco seguido de seus guarda-costas, que não eram mais necessários, pois com o fim dos humanos não existia mais perigo.
- Byte! Onde está você? – vociferou Dimas.
Um robozinho, que parecia um cone prateado com braços metálicos da grossura de uma vareta e ganchos no lugar de mãos, apareceu rapidamente flutuando a um metro do chão.
- Sim, chefe – disse numa voz mecânica.
- Já organizou as reuniões com os outros chefes de estado? – perguntou Dimas com toda a arrogância que sua autoridade permitia.
- Ainda não consegui entrar em contato com todos, chefe.
- Como não! – gritou Dimas – Seu inútil! Imprestável! Eu te criei para quê? Responde?
- Para ser um fiel e competente criado – respondeu Byte.
- E acho que errei em alguma coisa... – resmungou Dimas – agora volta para o teu escritório e termina de organizar essas reuniões ainda hoje! Entendeu?
- Sim, senhor...
Byte saiu rapidamente da sala.

Para Asimov

segunda-feira, maio 05, 2008

A INCRÍVEL FAÇANHA DE UM SONHADOR - Conto

Para ser respeitado por todos de sua comunidade, um jovem sonhador decide subir a montanha mais alta. Mal ele sabe que acaba de escalar para a Fuga da Sanidade.


A INCRÍVEL FAÇANHA DE UM SONHADOR Por Rodrigo Moreno®


O Vale dos Conformados, localizado no meio de um conjunto de serras, é uma pacífica comunidade de pessoas simples que vivem da caça e pesca. Pessoas alheias ao mundo e aos grandes acontecimentos. O ano é difícil de dizer, pois ninguém sabe ou se importa com isso. Pela tecnologia atrasada e rústica, talvez seja antes do século XX, ou quem sabe, muitos anos além, no século XXX. No entanto, os habitantes do Vale dos Conformados optaram por ficarem tecnologicamente atrasados no tempo. Nunca viram uma tv e nem ao menos fazem idéia do que seja um computador. Mas isso não tem importância naquela comunidade. Basta ter apenas o necessário para sobreviver.

Mas nem todos pensam assim... Ronaldo, o Sonhador, quer ir além. Sonha em ser o mais notável da comunidade, sonha em ser revolucionário, em se destacar como o mais respeitado e famoso habitante do Vale. As moças cederão as suas fantasias mais íntimas e duelarão por seu eterno amor. Aqueles que o criticaram chamando-o de excêntrico e sonhador sofrerão a angústia da inveja. Será bem recebido em qualquer casa e local. Esculpirão uma estátua sua na praça e todos o amarão e o elogiarão.

Esses sonhos de grandeza podem parecer impossíveis para um rapaz de uma comunidade humilde, mas Ronaldo encontrou uma solução nas palavras dos mais velhos quando ainda era um garotinho e se preparou a vida toda para o dia em que subiria a Morada dos Deuses, a montanha mais alta e perigosa. Segundo uma lenda contada pelos anciões, aquele que conseguir chegar ao topo da montanha terá direito a um desejo. Ronaldo cresceu ouvindo histórias dos homens que tentaram chegar ao topo e morreram por fome ou acidentes. Até hoje ninguém conseguiu e se ele fosse o primeiro seria eternizado pela história de seu povo. Não precisaria nem do desejo para conseguir o que queria, bastava apenas chegar ao topo.

Ronaldo sempre comentava sobre esse sonho de criança. Todos riam e faziam brincadeiras maldosas com sua imagem. Entretanto, seu plano de subir a Morada dos Deuses quando completasse dezesseis anos escondeu de todos. Faltando apenas uma semana para a sua façanha começar, Ronaldo decidiu revelar o que estava prestes a fazer. Como já era de se esperar, escutou gargalhadas dos mais novos e repreendidas dos mais velhos. Ignorou com uma teimosia infantil e pegando seus víveres e algumas roupas, começou sua aventura escalando para a morte, como diziam alguns. Mesmo assim, havia aqueles que gostariam de saber até onde o Sonhador conseguiria chegar. Alguns o seguiram e era isso mesmo que Ronaldo queria. Ele sabia que estava sendo seguido e observado como previra.

O caminho era cheio de pedras pontudas e mato. Quando ia se tornando mais íngreme, Ronaldo sentia todo o limite de suas forças desgastarem suas pernas. Vez por outra parava um pouco para descansar alguns minutos e comer alguma coisa. Sentiu vontade de oferecer um pouco de sua comida para os seus três observadores, mas lembrou-se de que deveria fingir que não sabia de nada. Ás vezes pensava nas histórias daqueles que morreram tentando escalar a montanha e no fim do primeiro dia dormiu pensando nisso. No segundo dia jurou ter ouvido vozes lhe chamando e dizendo que deveria voltar. Olhou para os lados e não viu mais nada se mexendo na moita e nem ouviu as risadinhas dos que lhe observavam.

Antes de o sol se pôr já alcançara o limite que qualquer outro homem conseguira. Estava frio como a morte deveria ser. Parou para descansar e comemorar sozinho. Já não tinha mais sinais dos seus perseguidores, provavelmente já haviam desistido de continuar por medo e cansaço. Voltaram para o Vale para relatar que Ronaldo, o Sonhador foi o primeiro homem a conseguir passar da metade da Morada dos Deuses. Deitou-se na neve pensando satisfeito no que as pessoas achariam dele agora.

No terceiro dia, pela manhã, Ronaldo, já sem forças, com lágrimas de alegria aquecendo um pouco seu rosto gelado, pisou no topo. Os sussurros dos ventos frios pareciam lamentações de almas invejosas. O ar rarefeito dava a sensação de que não estava mais no mundo e sim perto dos deuses. Ronaldo gargalhou de tanta satisfação. Mesmo sem forças para se mexer direito. Estava muito esgotado, machucado e com pouca comida. Mas o que importava era que agora era mais que um simples rapaz. Era o homem mais corajoso do Vale dos Conformados.

Lembrou-se também do seu desejo, deveria ser cuidadoso porque era apenas um. Ficou um bom tempo sentado, pois mal conseguia se mexer. Talvez pedisse um castelo de ouro com belas serviçais. Mas aí seriam dois desejos... Então poderia pedir que seu feito notável durasse a eternidade, mas isso provavelmente ocorreria de qualquer jeito - pelo menos se aqueles que lhe seguiam tivessem relatado tudo e não mentissem por inveja. Era difícil ter certeza dessas coisas e por isso Ronaldo pensou em pedir que todos no Vale dos Conformados soubessem que sua façanha teve êxito. Tentou se levantar para pedir isso, mas suas pernas ainda estavam muito doloridas. Olhou ao redor contemplando a solidão fúnebre do local. Uma pessoa não poderia viver ali, tão só... Mesmo sendo o homem mais respeitado, não havia ninguém para conversar e comentar sobre seu grande feito. Deveria descer e voltar para a comunidade. Mas sentia-se fraco, incapaz de conseguir descer. Mediu o prestígio absoluto e a solidão que enfrentaria se permanecesse ali. Com um suspiro profundo olhou para o céu e desejou “Me dê forças para descer...!”.

domingo, abril 27, 2008

DEUSES ALQUIMISTAS - Conto

Uma escultora começa a questinoar os motivos de sua cidade ser tão desconhecida. Nessa sede por respostas ela entrará numa busca insólita que termirá na Fuga da Sanidade.

DEUSES ALQUIMISTAS Por Rodrigo Moreno®


Com mãos sujas de barro e movimentos suaves Marina terminava mais uma escultura. Dessa vez uma mulher nua em uma pose que lembra as antigas estátuas gregas. Ainda faltava fazer os detalhes do rosto e do corpo. Mas, movida por uma curiosidade, colocou-a junta do homem nu que havia terminado há alguns dias. Pareciam Adão e Eva feitos do mesmo barro. No entanto, nunca teriam um contato físico, nem sequer uma troca de olhares, pois estavam fadados a permanecer em suas posições pela eternidade. Orgulhosa de seu próprio trabalho, a artesã contemplou o casal com um sorriso de admiração. Ao redor várias outras esculturas de pessoas, animais, casas, carros e cenas do cotidiano estavam espalhadas pelas mesas da oficina. Além de outros objetos úteis para o cotidiano como vasos, xícaras, pratos, etc. Todas não passavam dos vinte centímetros. Apesar do carinho que tinha por suas obras, todas teriam o mesmo destino: a loja de artesanato de Marcos, seu irmão. De lá sabe Deus pra onde. Pensando nisso colocava um preço considerado em cada trabalho. Era uma forma de valorizar sua arte e fazer o comprador ter consciência de cuidar bem de um produto que lhe custou caro. Marina levava em consideração a dificuldade que teve e, claro, o material. Não é tão fácil para ela conseguir tanto barro. Esse era o dia-a-dia de uma mulher simples em uma cidade mais simples ainda.

Seu mundo se resumia naquela cidadezinha, um pequeno espaço de terra afastado da urbanização que via na tv. Entretanto, Marina nunca reclamou. Se morasse em uma cidade grande, seu trabalho não seria tão valorizado e em pouco tempo deveria arranjar um emprego em algum escritório ou supermercado. O único problema daquela cidade é que sempre via as mesmas caras todos os dias. O mecânico Chico, o padre Ney, o padeiro Tonho, que sempre lhe dava uma nova cantada toda a vez que ia comprar pão, a Dona Rita, velha aposentada que passava as tardes na frente de casa fofocando com a Dona Zica, professora da única escola da cidade. Zica só dava aula pela manhã e tinha a tarde toda pra fofocar, atividade que se destacava. Entre outras pessoas... Eram sempre os mesmos vizinhos que pareciam nunca receber parentes ou amigos. Nem mesmo em épocas de férias as coisas mudavam. Nada de turistas, nem sequer aventureiros estrangeiros. As esculturas de Marina eram compradas pelas pessoas dali mesmo.

Era estranho, pois, modéstia à parte, era uma cidade bonita coberta de árvores, limpa, com praças que só não eram mais calmas por causa das gargalhadas de crianças brincando. Segurança também era um problema a menos na vida daquelas pessoas. A criminalidade era quase nula. Mas se os visitantes fossem interessados em aventuras, havia algumas belas cachoeiras tocando melodias líquidas que ecoavam pelas árvores fazendo perguntas para quebrar o silêncio, que eram respondidas pelo farfalhar das folhas quando batia uma brisa. Eram paraísos imaculados pela poluição desde a Criação.

Perguntas como “O que há de errado com a cidade?” ou “Por que nunca recebemos turistas?” começaram a latejar na mente de Mariana. A curiosidade era tanta que ela passou a dedicar a maior parte de seu tempo livre a procura de respostas. Consultou livros de história da biblioteca municipal, conversou com pessoas mais velhas, passeou pelo museu e até consultou o Google. Mas nada encontrou. Pelo menos, nada de relevante. Era como se Vila do Sossego, sua cidade, não existisse para o mundo. Isso é normal. Muitas cidades pequenas são desconhecidas.

Com a falta de sucesso nas pesquisas, esses questionamentos apenas aumentavam. Essa fome por respostas era tão grande que começou a trazer dores de cabeça para Marina. No início eram quase imperceptíveis, como se vespas voassem dentro de sua cabeça. No entanto, com cerca de uma semana, essas vespas se tornaram bolinhas de aço.

A dor latejante parecia causar rachaduras no crânio de Marina. Não poderia sair de casa naquela manhã e nada de trabalho até o médico permitir, foram essas as ordens de seu irmão. Ela não conseguia nem mexer a boca para questionar. O Doutor Joaquim, após examinar a paciente, disse que ela estava ardendo em febre e deveria permanecer em repouso por uns dois dias. Receitou uma medicação simples e entregou para Marcos que foi direto pra farmácia. Marcos era um segundo pai para a irmã mais nova.

Nos poucos minutos que Marina permaneceu sozinha, depois que o médico e seu irmão saíram, sentiu uma dor aguda no meio da testa. Parecia que algo perfurava o cérebro naquele ponto. Soltou gritos que só foram ouvidos pelo silêncio camuflado nas paredes da casa. O mesmo silêncio perene de um calabouço.

Marina pensou que ia morrer assim que chegasse ao limite daquela tortura. Percebeu o engano quando abstrações do seu inconsciente tomaram formas projetando-se na frente de seus olhos. Eram idéias caóticas que, por algum motivo, surgiram em sua mente nos últimos minutos. Olhos de gigantes observavam-na como cientistas observam o comportamento de um ratinho preso numa gaiola. Via apenas silhuetas cobertas por sombras, mas seus olhos analíticos estavam claros. Tão claros que pareciam vários pares de luas-cheias unidas em um círculo.

“Já estou começando a delirar...”, pensou ela. Subitamente a porta se abriu batendo na parede ao lado. Marcos entrou no quarto apavorado. Sem dúvida havia escutado os últimos gritos. “Marina! Marina! O que aconteceu?”, gritava ele, tremendo e preparando seu coração para encontrar a irmã quase desfalecida. Um certo alívio acalmou seu espírito quando viu Marina, ainda com forças, se contorcendo de dor com as mãos na cabeça. Parara de gritar. Apenas apertava os dentes e as pálpebras fortemente. Estava jogada no chão.

Marcos não teve tempo para pensar e agarrou sua irmã levantando-a e em seguida colocou-a na cama. “Gigantes! Cuidado! Gigantes!”, sussurrava ela como se estivesse tendo um pesadelo e não pudesse acordar. Marcos chamou o médico novamente. Doutor Joaquim chegou em menos de cinco minutos. Sua paciente havia parado de contorcer-se. Parecia calma, mas continuava delirando em murmúrios... “Cuidado com os Gigantes!”.

O médico disse que eram apenas delírios, ela não morreria por causa de uma febre. Disse que Marina deveria passar uns dias em casa e não poderia ficar sozinha. Marcos já estava pensando em quem contrataria para observar sua irmã quando saísse para o trabalho. Talvez a Dona Rita estivesse disposta, afinal ela não tinha mais nada pra fazer a não ser ficar de fofoca a tarde toda.

Dona Rita aceitou com um sorriso abençoado, típico de velhinhas bondosas e prestativas. “É claro que cuidarei da sua irmãzinha. Será um prazer!”, disse ela, “Não se importa se eu convidar a Zica pra me fazer companhia, se importa? Temos muito que conversar...”, pediu a aposentada. “Claro que não... Fiquem à vontade!”, disse Marcos.

Dizer que elas duas ficaram literalmente de olho na Marina seria um exagero. Passaram as tardes fofocando e vendo tv. Vez por outra uma delas ia ao quarto da moça para ver seu estado. Dona Rita fez um chá que aprendeu com sua mãe para a febre abaixar. Mais um esforço em vão. A febre parecia aumentar, e os delírios continuavam. Sempre sobre gigantes de olhos que parecem luas. As duas senhoras assustavam-se com aquilo e começaram a acreditar que tinham feito alguma bruxaria pra moça. Benzeram-se rapidamente. Passaram a fazer orações diariamente perto do corpo de Marina. Esta ouvia de longe murmúrios de pessoas rezando. No entanto, essas rezas eram abafadas pelas vozes estrondosas dos gigantes conversando. Parecia português, mas, pela grande vibração, as palavras eram incompreensíveis como bombas explodindo os tímpanos de uma frágil criatura.

Não se conteve. Correu para a rua sendo seguida pelas suas duas protetoras. Gritava como louca no meio da cidade. Muitos riam, outros contemplavam assustados. “Gigantes! Protejam-se dos gigantes!”, gritava ela. As duas senhoras que a seguiram assustaram-se e preferiram manter distância. Alguém foi correndo avisar a Marcos que sua irmã havia pirado de vez. Marcos deixou a loja na responsabilidade de seu ajudante e saiu às pressas. Logo em seguida correu em direção a sua irmã que berrava loucuras no meio da praça, rodeada de curiosos.

Marina contemplava o infinito absoluto naquele manto escuro do céu. “Olhem as luas!”, gritou ela novamente. Muitos que estavam presentes olharam para cima e viram apenas estrelas que brilhavam como diamantes. Luas? Só existia uma. Todos puderam comprovar. “As luas são os olhos deles! Eles estão nos observando!”, insistiu Marina. Em seus olhos refletiam-se vários objetos celestes em forma de globos brilhando. Em seguida a silhueta de um par de mãos gigantes movia-se pelo céu. “Mãos! Olhem as mãos!”, gritou Marina apontando com o dedo para o alto.

Novamente ninguém viu nada. Mas Marina continuava insistindo até ser repreendida por seu irmão. “Marina! Para com isso pelamordedeus!”, gritou Marcos. Em seguida segurou-a pelos braços. “Vou te levar pra casa agora!”. “Me solta! Vocês têm que me ouvir! Os gigantes vão nos matar!”. Aos gritos ela foi levada pra dentro de casa. Uma aglomeração de pessoas se formou na porta da frente. O padre achava que ela poderia estar possuída pelo Demônio. Alguns se benzeram ao ouvir essa hipótese.

Da janela do quarto, Marina via movimentos estranhos no céu. Jurava para seu irmão que eram mãos titânicas. Ele dizia que eram apenas delírios, que ela tava doente e deveria parar de bancar a maluca no meio da rua. Marcos saiu do quarto e trancou a porta. Foi até a frente da casa pedir para as pessoas irem embora porque já estava tudo resolvido e Marina ficaria bem. Alguns ignoravam seu pedido fazendo perguntas indiscretas. “Ela tá possuída pelo Inimigo?” , “Ela ficou realmente doida?”, entre outras...

Marcos ignorava as perguntas – mesmo sentindo-se ofendido – e insistia para que todos fossem embora. Quando, subitamente, um estrondo seco de algo cedendo e um grito vindo de dentro da casa suscitaram um silêncio na multidão agitada que durou alguns segundos. “Marina!”, gritou Marcos correndo para dentro. Os comentários curiosos e indiscretos na aglomeração de pessoas começaram novamente. Todos pareciam mais assustados.

Marcos abriu a porta com tremenda força que quase arromba. Marina não se encontrava mais lá. Olhou a janela e surpreendeu-se ao ver que não existia mais. No lugar estava um buraco enorme como se um carro estive entrado. O que restou da antiga janela estava em pedaços em meio aos restos da parede no chão. Dessa vez foi Marcos que pareceu enlouquecer. Gritava pela irmã. Saiu pelas as ruas à procura dela, seguido da multidão que parecia mais preocupada em querer encontrar a moça viva do que por mera curiosidade.

A busca durou alguns dias que pareceram anos até que finalmente um dos moradores, Zé Maria, encontrou a moça perto de seu quintal. Estava toda suja de lama e nua como a natureza a criou. Foi levada para casa e afirmava não se lembrar de nada. Nem mesmo do inicio da febre. Tudo que se lembrava era que estava trabalhando na oficina. O importante era que sua saúde encontrava-se perfeita, nem marcas de qualquer forma de violência, nem ferimentos acidentais que poderia ter sofrido, e isso quem confirmou foi o Doutor Joaquim. A febre e as dores de cabeça também haviam passado. O mistério desse desaparecimento ficou apenas no imaginário popular de Vila do Sossego. Poderiam ser alienígenas? Demônios? Algum psicopata? Por que não a machucaram? A verdade encontrava-se bem longe dali. Talvez não tão longe, bastava apenas olhar para o céu...

Em um laboratório em algum lugar sem nome, um grupo de cientistas estuda o comportamento de suas novas criações. Homens minúsculos, do tamanho de uma barata, criados a partir do barro. Basearam-se por fórmulas encontradas em livros de alquimia que permaneceram escondidos durante a Inquisição. Havia centenas criações defeituosas que se encontravam espalhados em vidros. Eram seres mal-acabados. Alguns tinham uma perna ou um braço maior que seu par, outros uma orelha que parecia de elefante, pescoços longos demais, alguns possuíam duas ou três cabeças e seis braços - talvez tenham se misturado a outros homens no momento da produção quando o barro ainda estava mole. Eram os seres humanos (se é que se pode chamar assim) mais horríveis criados naquele laboratório. No entanto, em meio a essa legião de aberrações existia uma pessoa que não aparentava defeito físico algum. Na verdade seu único defeito era a percepção. Algo em seu cérebro lhe deu a capacidade de enxergar mais do que devia. Era uma mulher que gritava enlouquecida. Dava pra ouvir de longe os seus gritos agudos e irritantes como os de um passarinho. Tiveram que colocar uma cópia sua na sociedade onde vivia, uma cidadezinha muito semelhante a essas cidades de interior. De longe parecia uma maquete.

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” Gênesis cap. 1 : 26

segunda-feira, março 10, 2008

Fuga da Sanidade - aprovado pela Fumbel

Após cinco anos na frente do computador escrevendo toda vez que surgia uma idéia, finalmente vou conseguir publicar meu livro - Fuga da Sanidade. Meu projeto foi aporvado pela Lei Tó Teixeira. Essa foi apenas mais uma etapa, ainda preciso buscar patrocínio. Mas as coisas funcionam assim mesmo. como já dizia Jack, O Estripador "Vamos por partes!"
Pretendo que Fuga da Sanidade seja distribuído em todo país, mas isso ainda vai depender de quanto vou conseguir dos patrocinadores. Gostaria de enfatizar que o livro consiste em 14 contos fantásticos, incluindo terror, realismo fantástico e ficção científica. Alguns contos já foram publicados no blog, mas todos foram revisados diversas vezes. A narrativa está muito melhor e as histórias também.
Sem querer perder a modéstia, mas eu acredito no meu talento e quando estiver lá em cima, estenderei a mão para quem me ajudou, agradecerei quem me criticou e ignorarei quem me ignorou.

Já estou com idéias para futuros livros, mas isso é outra história...

[]'s

quarta-feira, janeiro 02, 2008

2008

Mais um ano que se foi... levando certos grilhões frívolos que não me deixavam seguir em frente... enfim, estou muito bem e aguardando o a responta da FUMBEL para publicar meu livro - Fuga da Sanidade. Esse ano vai ser interessante...
Outra novidade é que finalmente me formei em Adm com Habilitação em Marketing. Foram 4 anos e meio de histórias na FAP e mesmo feliz por ter concluído minha graduação, vou sentir saudades de muitas coisas... mas tenho que continuar seguindo meu caminho, fazer concurso público, pós-graduação, etc...
Estou ansioso para ver o que me espera daqui pra frente.

PS: Geralmente posto contos no meu blog, mas já que nao tenho nenhum novo postei essa novidade, que para muitos é supérflua, só para não deixar meu blog preso em 2007.

[]'s

sábado, setembro 08, 2007

UM EXEMPLO DE SUCESSO - Conto

Poucas pessoas no mundo possuem tanta determinação e sorte como Marta, uma pessoa cheia de virtudes e disposta a ajudar a todos. Porém, ela está prestes a descobrir sua verdadeira natureza na Fuga da Sanidade.


UM EXEMPLO DE SUCESSO Por Rodrigo Moreno®


Existem pessoas que realmente nasceram com o Universo como criado. Como grande exemplo podemos citar Marta, uma mulher que nasceu pra bilhar, como definem alguns e sem dúvida que não estão errados, pois essa grande executiva tem uma vida de dar inveja a muitos. Filha única de um grande empresário, Marta sempre teve todas as oportunidades que o mundo e o dinheiro poderia oferecer. Estudou em uma das escolas mais conceituadas (e mais caras!) da cidade. Desde os cinco anos tinha aulas particulares de piano, balé e inglês, tornando-se prodigiosa em todas essas três áreas. Apesar de poder escolher ser uma bailarina de sucesso ou uma grande pianista, Marta optou pela faculdade de Administração e aos vinte e cinco anos terminara de concluir seu Mestrado nos Estados Unidos. Marta sempre fora uma pessoa muito inteligente e apesar dos “mimos” dos pais, sempre buscara independência.

Todos que a conheceram se surpreendiam com sua fabulosa inteligência e grande carisma. Todos a amavam e queriam ser seus amigos, ela, amável por natureza, retribuía toda a admiração das pessoas com toda a atenção, ternura e complacência que lhe era capaz. Sempre sorrindo com o mais belo sorriso que despertava ainda mais o afeto de alguns o os sentimentos secretos e puros de alguns admiradores apaixonados. Era comum que uma mulher como ela tivesse tantos pretendentes, pois, além de bonita, determinada e inteligente, aquele sorriso perfeito expressava toda a franqueza de sua alma abençoada. Era a mulher perfeita para todos.

Entretanto, para a tristeza de muitos, após voltar do exterior e assumir o cargo de vice-presidenta da grande organização do pai, Marta começou um relacionamento sério com Cristóvão, um advogado exemplar e bem-sucedido e também cercado de muitas admiradoras. Aos dois anos juntos casaram-se e tiveram um casal de filhos gêmeos. Não se sabe se a inteligência dos filhos veio do pai a da mãe, mas isso não importa, pois Marta se orgulhara muito dos seus pequenos herdeiros. Thomaz, apesar de um pouco levado, o que era comum na sua idade, era o melhor aluno da turma e desde aquela idade já demonstrava um precoce espírito de liderança, o que provavelmente o tornaria presidente da organização do avô um dia. Natália tinha puxado o lado artístico da mãe e demonstrava um grande talento pro canto, piano e balé.

Marta tinha a vida que todas as mulheres sonharam ter, e apesar de todo o esforço que teve, sabia que não seria preciso tanto, pois o Universo conspirava a seu favor. Mas como nada pode ser perfeito, uma coisa a incomodava: falta de tempo livre. Ela já se acostumara a trabalhar bastante, mas às vezes tinha aquela breve sensação de que sua vida se resumira a isto. Ela sempre arranjava tempo para se dedicar à família, mas no fundo queria um pouco de tempo sozinha, para fugir um pouco da rotina cansativa e quem sabe ler um romance ou assistir um filme sozinha.

Cristóvão percebeu a inquietação da esposa e após concluir que Marta ansiava (e precisava) passar um tempo sozinha propôs levar os filhos para passar o fim-de-semana na fazenda dos avôs paternos. As crianças adoraram a idéia, pois já fazia um bom tempo que não iam lá e Marta adorou mais ainda. Então eles foram sábado pela manhã. Marta também deu uma folga para os empregados que trabalhavam aos domingos e encontrava-se completamente só e livre dentro daquela casa grande. Passou a manhã de domingo tocando piano como não fazia há meses, depois leu o jornal, conversou com algumas amigas pela Internet, leu algumas revistas femininas e fez seu próprio almoço. Pensou em pedir uma pizza, mas, como não cozinhava há muito tempo, decidiu por em prática seus conhecimentos de dona de casa e ver se ainda lhe restara algum.

Após o almoço debruçou-se na cama e ligou o grande televisor de tela plana. Mesmo com os diversos canais de TV á cabo, nenhum parecia lhe interessar, por isso ignorou, musicais, filmes antigos e desenhos animados e quando estava preste a desligar e ir dormir viu o parecia ser um documentário sobre moradores de rua. Porém, percebeu que não havia repórter algum e tão pouco um narrador. Tudo que via era um bairro imundo através da câmera, onde mendigos se agrupavam perto de valas e lixões em becos imundos. Aquela visão repugnante a angustiava e só de pensar na condição de vida daquelas pessoas sentia seus pelos se arrepiarem e uma efêmera ânsia de vômito pairava sobre sua cabeça. Entretanto, aquela programação, apesar de repulsiva, despertara sua curiosidade a respeito daquelas pessoas. Será que elas nunca foram alguém na vida? Será que apesar delas serem um grande exemplo de fracasso e falta de oportunidades isso também não as torna um exemplo de sobrevivência?

Marta se compadecia com pessoas que carregavam na vida o fardo da extrema pobreza. Apesar de seu pai nunca ter tido um espírito muito filantrópico, preocupando-se apenas em ajudar as pessoas carentes em projetos de responsabilidade social, Marta não puxara esse egoísmo e individualismo. Graças a ela, muitos outros projetos filantropos (que para seu pai deveriam ser chamados de responsabilidade social) tiveram sucesso e graças a ela muitas crianças com a idade de seus filhos e que mal sabiam ler e escrever e todos os dias dormiam de barriga vazia, hoje têm quatro refeições por dia, estudam nas escolas financiadas pela organização e dormem em camas macias. Muitos moradores de rua também são agraciados com o espírito humanitário de Marta que lhes dá de comer em todas as datas festivas como o Natal e a Páscoa. Sem dúvida que Marta já recebeu muitas propostas para entrar para a política, mas nunca quis se envolver com a sociedade dessa maneira, optando por ajudar apenas do seu jeito, levando o nome e a marca da organização de seu pai para uma das empresas mais humanitárias do país.

Mesmo com toda essa complacência pelo sofrimento daquelas pessoas, a educação nobre de Marta não poderia deixar de sentir uma grande repulsa pelo trauma causado pela injustiça da sociedade, que estava expresso na aparência suja e fétida daqueles mendigos e agradece quando a câmera olha para os lados e sai daquele beco imundo. Ela começa a cambalear como se o cameraman estivesse bêbado. Aproxima-se de um homem bem vestido com um terno não tão caro e empunhando uma mala preta na calçada esperando o sinal fechar. Ele olha para a câmera e com os mesmos olhos de desdém que via em seu pai quando algum morador de rua se aproximava para pedir dinheiro, diz “Quer dinheiro? Vai procurar o que fazê?”. Nesse instante o sinal se abre e ele atravessa a faixa apressado. A câmera então muda de rumo e passeia pela calçada ainda cambaleando. Duas jovens moças segurando cadernos e livros vêm na outra direção conversando. Uma delas reclama de um odor insuportável ao redor. Ao olhar para frente vê a câmera e puxa a amiga para o lado afastando-se com uma expressão no rosto de repulsa e um pouco de medo. A câmera continua seguindo pela calçada até ser surpreendida por uma garotinha que oferece alguns trocados ao cameraman. Este pega e Marta percebe que sua mão suja é fina coma a de uma mulher. “Isso é pra senhora.”, diz a garotinha entregando o dinheiro. Em seguida vai ao encontro da mãe no outro lado da rua e leva uma grande repreendida da mesma. Marta pode ouvir de longe a mãe brigando com a filha e mandando ela nunca mais se afastar dela e nem falar com estranhos. A câmera dá mais algumas voltas e desce até um grande lixão perto de um bairro humilde onde outros moradores de rua se esforçam para encontrar um pouco de comida estragada para enganar a fome. Um deles olha para a câmera e sorri com dentes amarelados e corroído por cáries. Seu rosto parece familiar. “Olhem pessoal! Ela voltou! Hehehe!”. “Marta! Pensei que estivesse morta!”, diz outra moradora de rua, uma senhora gorda e negra. “Chegou na hora certa! Tem muito lixo bom hoje!”, disse sorrindo o morador que a reconhecera. Seu nome era Chico e a senhora eles chamavam de Velha. Também estavam presentes Zé, Espirro, Urubu, e todos os outros mendigos locais, alguns até sem nome ou apelido definido. Marta gradualmente vai sentindo a falta do conforto da sua cama de casal e do ar-condicionado e percebe que está usando como vestimenta trapos velhos e um par de sandálias velhas diferentes uma da outra. Sente o suor insuportável do meio-dia, mas ela parece já estar acostumada e sente um fedor nauseante exalando da sua pele mal cuidada, suja e cheia de feridas causada pro mosquitos. “Isso não pode ser real”, pensa ela, “O que eu estou fazendo aqui?!”, grita ela apavorada, “Onde está minha casa enorme, minha TV de tela plana e todo o conforto que eu tenho direito?!”. “Lá vem ela com esse papo de novo!Hehehe”, diz o Chico e os outros mendigos começam a gargalhar. “Por que vocês ousam rir de mim?! Depois de tudo que eu fiz pra vocês! É assim que me agradecem?! Pois saibam que eu sou muito rica! Meu pai é...”, antes que pudesse concluir sua frase a Velha a interrompe concluindo para ela “ Um grande empresário! Você sempre diz isso quando toma um porre!Ahahaha”, “Certo Senhora Grande Executiva, o que vai trazer pare esses pobres famintos nesse natal? Um peru assado? Ou seria um urubu assado? Hahaha”, diz Espirro sarcasticamente. “Não, vocês não entendem! Eu sou mesmo uma grande executiva! Sou casado com um ADEVOGADO muito rico também e tenho dois fio bunito!Eu falo inglês, toco piano, sou bailarina...”

Marta tentava convencer os outros mendigos que seus delírios causados pela fome e pela cachaça barata eram reais ao mesmo tempo em que tentava inutilmente acordar daquele pesadelo que se tornava cada vez mais real à medida que o efeito do álcool se esvaía e a barriga voltava a mendigar um prato de comida. Os outros mendigos apenas riam mais uma vez daquela moradora de rua que sonhava ser uma rainha.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Conto - HERÓI ?

Leo é um adolescente diferente. Ele tem a habilidade de prever futuros trágicos. Entretanto, não pode fazer nada para mudar o futuro e só lhe resta lamentar o fim trágico das vítimas. Porém, ao prever o assassinato de uma pessoa conhecida decide salvá-la, mas descobrirá que isso não será fácil na Fuga da Sanidade.

HERÓI ? Por Rodrigo Moreno®

“Meu filho! Eu já disse que não tem ninguém lá!”, gritou a mãe de Leo, sua voz já estava ficando rouca e sua paciência estava se esvaindo. “Calma querida... ta tudo bem...”, consolou o pai. À frente de Leo, o garoto loiro com cerca de 7 anos continuava gritando pedindo socorro. “Eu tenho que ajudá-lo! Alguma coisa vai acontecer ou já deve estar acontecendo! Esse menino precisa de mim!”, insistiu Leo. Entretanto, a sua frente os seus pais só viam a cama desarrumada do filho e alguns pôsteres de bandas de rock na parede.

Sua mãe, com os olhos vermelhos e lagrimando, fitou-o mais uma vez, com um olhar que expressava compaixão e decepção, antes de deitar o rosto no ombro do marido que a consolava. “O Leo enlouqueceu... oh, meu Deus...!”, sussurrou ela. Leo continuava apavorado, mas não ignorava o olhar esquisito de seus pais observando-o como se fosse algum doente em estado terminal. Ele gostaria muito que sua mãe estivesse certa. Gostaria muito de estar realmente louco, mas pelas poucas experiências que teve com precognição tem certeza de que tudo que prever irá se concretizar uma hora ou outra.

Infelizmente nunca previu coisas boas como o resultado da loto ou questões de provas. Suas previsões sempre se limitaram a terríveis tragédias, como acidentes e assassinatos. Nunca de pessoas conhecidas. Mesmo assim, sentia-se na obrigação de tentar evitar. Entretanto, era só um garoto de 16 anos que ainda dava satisfação aos pais e não poderia sair por aí bancando um vigilante como nas revistas em quadrinhos. Além disso, é magro e não é um exímio lutador. Chamar a polícia também estava fora de cogitação. Que policial em sã consciência acreditaria em tal absurdo, ainda mais vindo de um garoto como ele? Aliás, quem acreditaria? Nem seus próprios pais acreditavam! Depois de terem visto o filho jurar que um garotinho gritava pedindo socorro o levaram num psicólogo em seguida num psiquiatra e depois ele passou uns dias numa clínica psiquiátrica.

Mas suas visões continuavam, só que ele aprendeu a disfarçar mais para enganar os pais e os médicos e poder voltar para casa. Teve êxito em seu plano, mas mesmo assim o peso da responsabilidade de seu poder paranormal pairava sobre suas costas. Sentia-se em dívida com a humanidade por não poder evitar as tragédias e lamentava como um médico quando perde um paciente. Quantas famílias já sofreram só por ele ser um garoto totalmente dependente? O que significava aquele dom se ele não poderia usar? Tudo que poderia fazer era se desculpar em pensamento com as vítimas na esperança quase perdida de que elas o ouvissem.

A angústia causada pela sua crise “pseudo-heróica” chegou no ápice quando na última noite seus sonhos lhe trouxeram mais uma visão trágica do futuro. Uma garota, com mais ou menos a sua idade, gritava desesperada pedindo socorro. Seus olhos expressavam o medo e a agonia da alma que se traduzia em lágrimas que deslizavam pelo rosto coberto de hematomas. Ela fitava o rosto do carrasco pedindo misericórdia. Uma negociação silenciosa pela vida era feita desesperadamente naquele momento. Mas o objetivo dele não era negociar. Não dava para ver sua fisionomia. Apenas a sombra projetava na parede denunciava um homem. Suas mãos agarraram o pescoço frágil dela que tentava lutar inutilmente. Lutou até suas forças se esvaírem e se entregar à morte iminente. Nada que Leo não tinha visto antes em outras visões, com outras moças, mas dessa vez ele conhecia a vítima. Seu nome era Anna e morava há alguns quarteirões de distância da sua casa. Suas mães se davam muito bem, porém eles só conversaram três vezes. Duas na igreja e uma quando se encontraram no ônibus. “Ela é uma garota legal, tem planos... ela não deve morrer...”, pensa Leo “Acho que dessa vez eu consigo evitar! Eu a conheço, então se ficar mais íntimo posso ajudá-la!”, dessa vez já falava seus pensamentos em voz baixa olhando-se no espelho do banheiro como se dialogasse com seu reflexo.

No dia seguinte encontrou-a indo para a parada de ônibus pela manhã. Era época de chuva. O dia estava frio e as nuvens anunciavam a próxima chuva que começava com um simples chuvisco. Ela segurava os cadernos e apressava os passos para não se molhar. Ele por sorte, não esquecera o guarda-chuva como da última vez e apressou também os passos para chegar até ela e oferecer uma carona. Ela, sorrindo gentilmente, aceitou. “Obrigada! Se eu molhar esses livros meu pai me mata!”, agradeceu em tom de brincadeira. “Então eu sou o seu salvador!”, disse Leo brincando também, “Ahahah. Talvez...”.

Foram conversando até a parada e por sorte pegaram o mesmo ônibus. Em cerca de alguns minutos já conversavam sem tantas formalidades como se fossem grandes amigos de infância. Compararam gostos em comum e contaram historias pessoais. Quando a parada onde Anna desceria estava próxima ela se levantou e eles marcaram de pegar o mesmo ônibus no dia seguinte. Uma semana depois viajando juntos, decidiram ir ao cinema. Foi então que começaram a sair. Cerca de um mês já estavam no inicio de um relacionamento amoroso.

Suas famílias aprovavam, pois, para eles, tanto Leo quanto Anna eram “Bons partidos!”. O que eles não imaginavam é que duraria tanto. Terminaram o colegial e entraram na faculdade juntos. Raramente brigavam e estava claro que a probabilidade de continuar no casamento era maior do que de terminarem. Ele se formou como psicólogo e ela dentista. Foram viver juntos e depois dela engravidar decidiram alegrar os parentes com o tão sonhado casamento. Leo se orgulhava da esposa, pois mesmo com 25 anos ela mantinha a aparência daquela garota de 16 que ele dera uma carona no seu guarda-chuva.

Enquanto as suas visões... ele quase não as tinha. Mas não se importava mais com isso. Tudo que queria era ser feliz. Mais feliz do que já era. Claro que nem tudo foi uma grande felicidade como ele imaginara. Ainda tinha o assassino de Anna que deveria ser combatido. Leo atenciosamente observava os ex-namorados e alguns amigos que ele não gostava. Fazia o possível para não parecer ciumento.

Quando eles estavam com um ano de namoro. Leo foi à casa de Anna como prometera. Não haviam marcado nada antes. Ele apenas recebeu um telefonema dela pedindo para que ele passasse lá porque estava só e com medo. Não medo de alguém específico segundo ela, “Apenas medo de ficar sozinha...”, disse ela calmamente ao telefone. “Talvez ela esteja afim de ver um filme ou fazer sexo. Ou os dois!”, pensou Leo. Arrumou-se bem e se apressou ansioso porque “Essa noite promete!”, disse ele sorrindo satisfeito enquanto penteava o cabelo se olhando no espelho. Mas sua opinião mudou e sua felicidade e ânsia transformaram-se em medo e preocupação quando chegou na frente da casa dela e encontrou a porta entreaberta. Ela estava gritando com alguém. “Não, eu não quero! Me deixa em paz! Eu juro que chamo a polícia!”, gritava ela. “Não vai demorar nada... mas se não quiser eu te mato agora!”, respondeu uma voz masculina e furiosa. “Você vai ser minha essa noite!”.

Leo não se conteve e correu pra dentro da casa. Ao entrar viu as costas de um homem com cerca de 1,80. Na frente dele se encontrava Anna com uma expressão de medo no rosto, afastando-se a passos lentos, mas pronta para correr se fosse necessário. Eles não perceberam a entrada de Leo. “Me deixe em paz!”, dizia Anna com uma voz trêmula e tentando gritar. Leo correu e pulou em cima do homem. “Te afasta dela!”. Uma briga entre eles dois foi travada. Não houve socos nem pontapés, apenas mediam forças tentando imobilizar um ao outro. Apesar do homem ser mais forte, Leo, movido pela raiva, demonstrou uma força que nem ele mesmo conhecia. Anna começou a gritar e em seguida chegaram os vizinhos e rederam o homem. Depois chamaram a polícia e os pais de Anna. Sua mãe não conteve o desespero e estapeou o rosto do homem várias vezes até ser impedida pelos policiais. Não por vingança, mas para repreendê-lo, pois na verdade ele era o seu irmão mais novo. Isso chocou a todos que ficaram sabendo que Anna era assediada sexualmente pelo tio há alguns anos. Leo ficou decepcionada por ela nunca ter comentado nada, mas não pediu nenhuma satisfação. O importante era que ele conseguiu salvá-la. Esse pesadelo ficou no passado eles estavam felizes esperando o primeiro filho.

Quando Ruan nasceu, Leo decidiu abrir sua própria clínica. Tiveram que fazer algumas despesas, mas antes do segundo aniversário do filho, já estavam bem estabilizados. Mudaram para uma casa melhor e maior. Dois carros do ano na garagem e aos três anos Ruan se preparava para estudar em um dos colégios mais caros e bem conceituados da cidade. Leo tinha tudo que queria e se sentia o homem mais sortudo do mundo. Vivia feliz e era bem visto pelos amigos. Sempre fora um homem de temperamento calmo, porém em uma festa de casamento de uma grande amiga de Anna, descobriu seu verdadeiro ponto fraco. Anna reencontrou um antigo namorado e eles ficaram conversando a noite inteira. Não que fosse ciúmes diria Leo, mas eles passaram a noite muito juntos e ela quase não deu atenção ao marido. No carro, Leo calmamente tentou conversar sobre esse ex-namorado. “Não vai dizer que tá com ciúmes?”, disse Anna em tom de brincadeira. “Claro que não... eu confio muito em você, mas bom... poderia ter me dado mais atenção. Tive que aturar aqueles sogros da sua amiga a noite toda.”, respondeu Leo disfarçando a seriedade no mesmo tom de brincadeira. As palavras foram perdendo a calma e em alguns minutos estavam prestes a ter uma grande discussão se não fosse por Leo se desculpar. Eles decidiram esquecer aquele desentendimento. Leo achava que poderia, mas estava enganado. Seu próprio conhecimento sobre a psique o enganou.

Depois daquele dia passou a fazer perguntas sobre os colegas de trabalho de Anna, quem era aquele amigo que lhe deixa em casa todas as sextas e por que ela conversava muito com o vizinho da frente. Aos poucos seu ciúme foi ter tornando gradativamente em um possível transtorno psicológico. Ele sabia disso, mas não conseguia controlar, pois no fundo tinha medo de que Anna o trocasse por alguém melhor. Isso arruinaria sua vida. Seu filho era muito novo para ver os pais se separarem e poderia ficar traumatizado ou ter outros problemas, até mesmo sociais! Leo não poderia deixar isso acontecer.

Desnecessário dizer que esse ciúme gerava grandes discussões entre o casal. Ruan, que já tinha 7 anos, observava tudo assustado. Anna já não agüentava mais aquele tormento e pediu para Leo procurar ajuda profissional. Ele sempre prometera que ia, mas nunca cumpria. Hoje ele lamenta muito isso, pois quando viu um homem saindo de sua casa quando chegava para o almoço não conteve o ciúme e entrou gritando com Anna pedindo satisfação. Ela disse que era apenas o encanador que havia chamado para consertar a pia. “Acha que eu vou acreditar nessa história sua vagabunda!”, gritou Leo e em seguida estapeou-a no rosto. Assustada ela tentou escapar, mas Leo a agarrou pela cintura e arremessou-a contra a parede. Em seguida socou-a várias vezes antes de suspendê-la pelo pescoço com as duas mãos. “Não!”, gritou Ruan que assistia tudo. “Socorro!”, continuo ele. Leo ignorou os gritos do filho e o monstro que se escondia atrás de seu rosto amigável e sorridente projetou-se aos olhos de Anna que perdia o ar sem entender o porque de todo aquele sofrimento. Eles eram tão felizes... Tinham um filho bonito, loiro como o pai. Ruan sempre fora uma criança alegre, mas agora gritava ao vê-la morrer. Por quê tudo isso? Inveja de terceiros que eram infelizes e desejavam pelos menos um terço de sua felicidade? Esses e outros pensamentos passavam rápidos por sua cabeça antes de perder a capacidade de raciocinar. Aos poucos Anna sentia seu fôlego chegar ao fim e a última cena que pôde ver foi o filho gritando a alguns metros atrás daquele par de olhos bestiais do homem que um dia ela pensou ser seu herói, mas agora era o carrasco.

Após o homicídio a besta desincorporou da consciência de Leo que foi despertado pelos gritos do filho. Ao olhar para ele lembrou a visão do garotinho que gritava pedindo para socorrê-lo. Também se lembrou do sonho premonitório que via Anna ser assassinada. Foi preso e internado num sanatório após provar sua condição mental. Ruan foi morar com os avós maternos e nunca mais foi uma criança normal. Entrou em depressão profunda.

Até hoje, Leo se culpa por tudo. Sempre quis ajudar as pessoas com suas visões achando ser um herói. Nunca imaginou que na verdade era o grande vilão, um monstro que deveria ficar preso para sempre, senão pelas grades físicas, mas pelas grades psíquicas da eterna culpa.

sábado, julho 14, 2007

Conto - INSÔNIA

Alex perdeu tudo para o pôquer, inclusive sua esposa. Decidiu então começar uma nova vida em outra cidade. Porém, ao parar num estranho hotel, tem a chance de ter sua antiga vida de volta. Mas ele descobrirá que às vezes a sorte pode ser uma grande ilusão na Fuga da Sanidade!


INSÔNIA Por Rodrigo Moreno®


Alex estava viajando na sua moto preta há quase dez horas e só fez duas paradas rápidas para lanchar e encher o tanque. A menos de uma semana, perdera tudo numa aposta: sua casa, emprego e principalmente Júlia (sua esposa, ou melhor, ex), que apesar de não tê-la colocado na aposta, ela, arrasada, prometeu nunca mais olhar pra cara daquele viciado em jogos. Alex pensou que ela estava blefando, mas após bater a porta do apartamento com tremenda violência, percebeu que nunca mais a veria. Júlia foi morar com os pais e se negava a atender seus telefonemas. Seu emprego também não estava na aposta, mas o Garcia – seu patrão – disse que estava cansado de ver Alex toda segunda estressado e deprimido por ter perdido alguma coisa. Isso estava influenciando diretamente no seu escritório, pois Alex não conseguia produzir nada naquele estado. O Garcia tentou ajudar como pôde, até pagou um psicólogo, mas não deu jeito, Alex estava perdido no mundo.
Pegou tudo que lhe restava, sua moto preta, algumas roupas e seguiu estrada adentro. A idéia é ir para uma outra cidade onde estejam precisando de algum contador com um básico conhecimento de informática. Poderia procurar na sua própria cidade mesmo, mas estava tão traumatizado com tudo que não queria mais morar lá. Tudo que quer agora é começar do zero, mesmo não fazendo idéia pra onde está indo.
Há alguns minutos atrás, Alex estava estressado e nervoso com todos esses problemas, mas agora seu velho amigo Johnny Cash acalma seus nervos com suas baladas no MP3. Cash também tem a ajuda das paisagens e do vento batendo na jaqueta de couro. Uma parte de seu coração pensa na sua antiga vida: Júlia, seu velho emprego, seus amigos de trabalho e até dos vizinhos do lado e de seus dois filhos pequenos que iam aos domingos brincar com seu poodle, Jéssica, que na verdade era de Julia e foi junto com a dona. Enfim, a saudade bate, mas “Você deve continuar adiante, Alex!” Diz seu inconsciente, ou talvez seja o orgulho...
Nuvens púrpuras preparam-se para receber o Sol, anunciando assim o fim de mais um dia. A moto acelera. Faltam apenas 100 m para a próxima cidade. Alex vai fazendo as contas mentalmente de quanto irá gastar nessa parada, e antes que pudesse terminar avista a placa de boas-vindas. Não gosta nenhum pouco da visão: cidade suja e cheia de botecos com vários caminhões estacionados. Crianças sujas de areia brincando com pneus velhos e carrinhos de plástico observam o estranho passar rápido na sua moto, deixando apenas uma nuvem de poeira seguindo-o como uma sombra.
Alex fica imaginando o hotel onde vai ficar, “Tomara que não tenha cobras no banheiro...”. Observa algumas pousadas, todas parecem iguais, até no preço. Qualquer uma servia, mas faz sua escolha definitiva quando vê um pequeno hotel de dois andares. 1001 Noites era o nome, que soou estranho para ele. Apesar da simples aparência, de fora parece ser bem confortável. “Parece que aqui o café da manhã deve ter mais opções do que um simples café com leite acompanhado de pão com manteiga ou ovo e queijo.”
Ao entrar se espanta ao ver o tamanho conforto que o estabelecimento possuía: sofás de boa qualidade, lustres, belos vasos decorando o ambiente, estranhos quadros surrealistas enfeitando as paredes e uma tv de tela plana de 50 polegadas onde um senhor sentando num luxuoso sofá assiste o campeonato brasileiro e do seu lado um outro senhor mais velho com cerca de 80 anos sentado numa cadeira de rodas lendo jornal. Na recepção, uma mulher bem vestida com pouco mais que 40 anos, está sendo atendida por um senhor com traços indígenas. Alex vai até o recepcionista. “Poderia me ver um quarto?”, pergunta Alex, “Sim, quando acabar de atender essa senhora.”, responde o senhor sem nenhuma expressão no rosto. “Não sabe esperar meu amigo!”, reclama a mulher. “Desculpa.”. Alex senta-se no sofá olhando para a tv. Está um pouco chateado e não está ligando pro campeonato. “Gosta de futebol rapaz?”, pergunta o senhor sentado no sofá ao lado. “Não muito...”, responde Alex. “Pois, eu adoro! Quando tinha uns vinte anos, meu sonho era ser um craque da seleção! Hehehe... jogava muito bem! Mas é assim mesmo... a idade vai chegando... vamos ficando sem forças! Hehehe... está vendo esse aí sentado na cadeira de rodas? Foi um dos maiores corredores do Brasil! Mas hoje não ganha nem de uma lesma. Então tudo que resta agora pro nosso amigo é ficar sentado esperando a Dona Morte bater na porta. Hehehe... todos vamos passar por isso, mas infelizmente pra mim, isso já está acontecendo.”. “Senhor!” , chama o recepcionista ainda sem muita expressão, “Já posso lhe atender!”. Alex se dirige até ele, mas é surpreendido pela mulher que havia reclamado, “Desculpe minha arrogância... Perdi meu esposo semana passada e não estou conseguido controlar meu humor.”, “Está tudo bem... eu entendo. Entendo muito bem. Meus pêsames.”, diz Alex. “Muito obrigada... não consigo passar um dia sem sonhar com ele...”. “Senhor!”, chama o recepcionista. “Acho que já estou atrapalhando...”, diz a mulher um pouco envergonhada. “Tá tudo bem!”, diz Alex pacientemente, “Me veja um quarto, por favor!”. “São R$ 20,00 a diária!”, diz o recepcionista. Após Alex pagar, o recepcionista lhe entrega a chave do quarto 207.
O quarto, apesar de pequeno, é bem confortável: uma cama de solteiro, um armário, ar-condicionado e uma tv de 14 polegadas. Além de uma sacada onde passa uma boa corrente de ar tornando o ar-condicionado quase que dispensável. Alex joga sua mochila de acampamento com suas poucas coisas no chão e se joga na cama afundando-se em seus pensamentos e, como sempre, refletindo sobre sua nova condição. Agora tudo que mais queria no mundo era voltar no tempo e mudar tudo. Não pela aposta, isso já não interessa mais, mas por seu emprego e principalmente por Júlia. Porém, se deprime ao voltar à realidade.
O cansaço torna seu corpo leve como se pudesse flutuar numa nuvem. Sua mente começa a trabalhar mais devagar, e a corrente de ar o presenteia com suaves calafrios e uma doce melodia, que dança pelas curvas dos seus ouvidos. Seus olhos ficam pesados e logo se cruzam sem que Alex perceba. Começa sua longa e fantástica viagem pelo inconsciente. Está de volta ao seu antigo apartamento. Júlia está reclamando e pedindo para parar de jogar. Alex rebate as palavras dela dizendo que se não fosse pelo jogo eles não teriam conseguido aquele belo apartamento tão rápido. “Nós já temos tudo que precisamos! Você não precisa mais jogar!”, continua Julia. “É claro que precisa! Hehehe...” diz uma voz familiar surgindo pela porta do apartamento. Alex olha para trás e reconhece seu velho companheiro de jogo, Cristóvão. “Não é Alex! Você não pode parar agora. Está ganhando muito! Vamos continuar nossa partida agora, o Wagner e o resto da turma estão esperando!”, insiste Cristóvão. “Não! Ele não vai! Acabou! E dá o fora do meu apartamento!”, grita Júlia. “Seu apartamento... sim agora é seu, mas se não fosse o jogo esse apartamento ainda seria meu! Tenho boas recordações dele e não foi fácil pra mim perdê-lo! Mas tudo bem... faz parte do jogo!”. “Sinto muito... mas tenho que ir. Dessa vez vou ganhar uma casa de praia pra gente!”, diz Alex. “Não! Já chega! Eu não quero mais nada! Só quero ter uma família descente e um pai responsável pros meus filhos. Um que tenha vontade de crescer na vida e não aceite ser escravo de um patrão explorador e que não desperdice seu tempo nessas porcarias desses jogos!”, reclama Júlia, “É só isso que eu quero...” diz ela novamente abaixando o tom de voz e tentando manter o controle. Em seguida ela respira fundo e diz “Já chega de tudo isso. Vamos viver nossa vida em paz. Não vá com ele... fique comigo! Vai ficar comigo Alex?”, Alex reflete por um tempo e sente seu coração amolecer ao ver os belos olhos de Júlia vermelhos e derramando lágrimas. “Essa vai ser a última vez. Eu prometo!”, diz ele. “Vá pro Inferno Alex! Seu doente!”, grita Júlia perdendo o controle novamente. Em seguida entra no quarto chorando e batendo a porta violentamente. “Ela vai te pedir perdão até de joelhos quando ver o que ganhou!” diz Cristóvão, “Vamos amigo!”.
O cenário muda sem que Alex perceba e agora ele e Cristóvão estão numa mesa de cassino clandestino, ao redor de outros jogadores; todos velhos conhecidos de Alex. As cartas estão espalhadas na mesa e a partida começa. A sorte estava do lado de Alex e ficou com ele por um bom tempo, até ela decidir mudar de lado e ir para perto de Cristóvão como uma bela moça que jurava ser fiel e agora vai embora, rebolando e sorrindo sarcasticamente. Cristóvão é o vencedor e sorri como se já soubesse disso. “Hehehe... parece que ganhei. Deixe-me ver... o Wagner perdeu R$ 10.000,00, mas é rico e não vai fazer falta... o Monteiro perdeu sua bela lancha, que pena... ah sim, ele também é rico e pode comprar outra. O Fernando perdeu sua moto, mas também tem muito dinheiro. O Alex perdeu seu apartamento, mas também é rico... opa, me enganei! Era tudo que ele tinha... sinto muito!”, diz Cristóvão ironicamente. Em seguida, todos na mesa começam gargalhar. Alex sente seu corpo gelar e seu coração bater forte. Pensa que vai ter um enfarto e acorda gritando “Não! É meu!”. “Alex pra que essa gritaria?”. Ao olhar para o lado vê Júlia deitada na cama. Espantado ele pula de cama confuso. “Mas como...?” Por um instante chega a pensar que tudo não passou de um grande pesadelo e está no seu antigo apartamento, mas ao olhar para os lados percebe que ainda continua no hotel. Júlia ainda meio sonolenta e com o cabelo desarrumado diz, “Ficou maluco? Vai acabar acordando o hotel inteiro!”. “Isso não pode ser verdade... como veio parar aqui?”, pergunta Alex ainda confuso e assustado. “Pensei bem na nossa briga e acho que não consigo viver sem você... Por isso te segui até aqui! Conversei com o balconista e ele me falou que você estava nesse quarto. Vi a porta entreaberta, entrei e te vi dormindo, então decidi me deitar do teu lado a acabei caindo no sono...”. “Mas que horas são?”,pergunta Alex para si mesmo olhando no relógio. Dez horas e quinze minutos. “Nem acredito. Estava tão cansado que poderia dormir a noite toda e parece que o sono foi embora!”. “Vai ficar aí parado sem me dar atenção?”, diz Júlia brincando, mas usando um tom de voz um pouco sério. “Desculpa! Confesso que estou muito feliz por você querer dar mais uma chance pra gente, mas é que parece tudo tão estranho...”, diz Alex. Júlia se levanta da cama e vai até ele dizendo carinhosamente “Vamos esquecer todos os problemas, está bem...?” dá um beijo rápido na sua boca abraçando-o em seguida, mesmo percebendo que ele ficou sem reação alguma, até no momento do beijo. “O importante é que estamos juntos...”. Alex se mantém indiferente aos gestos carinhosos de Júlia, não por grosseria e sim porque ainda está perdido em suas reflexões tentando encontrar respostas. Em seguida, volta ao presente e se delicia com sua pele macia abraçando seu corpo, sua cabeça encostada no seu peito e seu cheiro dotado de um perfume natural, suave e único. Aos poucos ele vai abraçando-a, sorrindo afetuosamente com os lábios cruzados e deitando com cuidado seu queixo naqueles cabelos desarrumados. Ela nunca esteve tão linda.
Decidem sair e jantar em algum lugar por perto. Para surpresa de Alex todos os outros hóspedes estão acordados e felizes conversando com entes queridos que pareciam não ver a tempos. Por cerca de segundos uma bola de futebol não acerca a cara dele. “Me desculpe amigo. Estava só dando uma aquecida antes do jogo!”, era o senhor que estava no sofá. Ele estava diferente. Parecia bem mais jovem e com um porte físico atlético. Estava vestindo um uniforme da Seleção Brasileira de Futebol. “Sonhei com esse dia a minha vida toda e hoje acabo de ser convocado pra jogar na Seleção! Estou muito feliz, mas tenho que treinar mais. Sim, ainda estou muito mal... preciso melhorar! Se me dão licença...” após dizer isso pega a bola e vai correndo a passos curtos e em pouca velocidade como se estivesse fazendo exercícios. “Ah, você está aí!”, diz a viúva que ele conhecera na recepção. Ela está vindo em sua direção de mãos dadas com um homem aparentemente da mesma idade. “Olha, sei que não nos conhecemos muito, mas tenho que repartir minha alegria com alguém. Meu marido não estava morto! Ele está aqui comigo!”, diz ela abraçando o homem ao seu lado. “Que bom saber disso... eu também me dei muito bem hoje!”, diz Alex tentando esconder seu enorme susto. Principalmente quando vê o recepcionista índio vestido como um guerreiro de tribo carregando seu filho no colo e segurando nas mãos de sua esposa grávida. “Minha tribo ainda existe!”, diz ele sorrindo.
Tudo parece uma grande festa, mas não para Alex, que sabe no fundo que nada daquilo pode ser verdade. “Que foi querido...?”, diz Júlia carinhosamente. “Não está feliz em me ver?”. “Sim, claro... mas é que essas pessoas... tudo isso... a verdade é que não acho que isso seja real!”, responde ele “Nem você...” dessa vez seus lábios pesam, seu coração doe e sua razão pede para que ele esteja errado. Júlia beija sua boca, “Isso não parece real pra você?”, diz ela em seguida. “Não. Sempre gostei dos seus beijos, mas confesso que nunca consegui imaginar toda a sensação que eles me causam...”. Júlia se afasta séria e o encara nos olhos. “Ela nunca vai te perdoar pelo que fez! Por isso deveria aproveitar a noite e deixar seus sonhos favoritos serem reais...”. “Quem é você?”, pergunta Alex. “É apenas sua imaginação meu amigo” diz uma voz surgindo de trás. È o senhor idoso da cadeira de rodas. “Ela é como minhas últimas noites de corredor aqui no hotel e é como minha falecida esposa Rose, que me visitou durante uma semana inteira até eu me convencer de que não podia mais viver com uma ilusão. Esse não é um hotel comum... aqui as pessoas nunca dormem mais que alguns minutos e seus sonhos criam vida, que durará a noite toda. Sei que tudo parece estranho e sem explicação, mas é assim que as coisas funcionam por aqui.”. “Não ligue pra ele! Aproveite a noite! Estamos juntos e, se ficar aqui pra sempre, todas as noites eu virei visitá-lo.” . “Não sei se quero isso...” diz Alex acariciando seu rosto. “Não posso fugir dos meus problemas. Tenho que continuar seguindo pela estrada lá fora e começar de novo...” , “Para novamente perder tudo pro jogo?”, pergunta Júlia lagrimando. “Fique aqui comigo. Estou de dando uma chance...!” . “Não posso, sinto muito...”.“Eu também te darei uma chance Alex!”, diz uma voz familiar vindo de trás. É Cristóvão e atrás dele seus amigos Wagner, Monteiro e Fernando sentados numa mesa com as cartas arrumadas. “Será que vocês não se cansam de explorá-lo?! Deixem agente em paz!”, grita Júlia.“Por favor, minha querida, fique quieta, porque você o abandonou quando ele perdeu tudo.”, diz Cristóvão olhando Júlia nos olhos e depois olha para Alex sorrindo ironicamente, “Vamos Alex, uma partidinha de pôquer com seus velhos amigos! Hehehe...”. “Vamos Alex, quem sabe dessa vez você não consegue um monte de madeiras pra construir um barraco! Hahaha...”, diz Wagner e começa gargalhar junto com Monteiro e Fernando. “Parem rapazes! Assim vocês vão assustá-lo. Hehehe...”, diz Cristóvão, “Vamos Alex, estamos só te esperando!”. “Não, ele não vai!”, grita Júlia. “Alex, você vai deixar essa exploradora lhe enganar de novo? Ela é só um atraso pro seu sucesso. Você é um cara de sorte e dessa vez estamos aqui para te dar uma chance. Não preciso daquele velho apartamento, e estou disposto a apostá-lo!” , “Dessa vez não dá! Não tenho nada para apostar graças a vocês!”, grita Alex. “Tem sim. Que tal sua alma? Hehehe” , “Como assim?”, pergunta Alex. “Não rapaz! Não deixem que eles te aprisionem aqui também! É tudo que querem?” , alerta o senhor na cadeira de rodas, “Lembre-se que são apenas ilusões! Você não ganhará nada!”. “Eu preciso! Eu tenho que vencer deles!”, insiste Alex. “Não querido fique comigo!”, implora Júlia, porém ele novamente ignora, senta-se à mesa e pega suas cartas.
O jogo começa e parece que realmente a sorte mudou de lado, pois as fichas de Alex estão acabando e ele sabe que quando perder todas, perderá sua alma. O tempo passa despercebido para os jogadores e principalmente para Alex. Por alguns instantes ele sente que não pode ganhar e se arrepende de ter seguido seu vício novamente. Mas parece que as coisas começam a melhorar e suas cartas são boas. Porém, na hora de amostrar os baralhos Cristóvão ganha novamente, “Agora sua alma é minha! Ahahahaha”. Alex sente o peso da vergonha e da derrota no peito e encolhe o corpo tentando imaginar o que irá acontecer em seguida. Terá que ficar naquele hotel para sempre? Será que será um escravo do hotel como o índio?. “Verifique os punhos dele Alex” , diz o senhor na cadeira de rodas. Alex olha rapidamente para os pulsos de Cristóvão e vê cartas escondidas na manga. “Então você não passa de um maldito ladrão!”, grita Alex levantando-se e batendo na mesa violentamente. “O que vai fazer agora? Sua alma já é minha! Ahahaha”. “ O senhor está enganado”, diz o senhor na cadeira de rodas, “Já amanheceu a quinze minutos. Todas os outros sonhos já desapareceram. Falto só você e seus amigos!”. “Não pode ser! Isso não é justo! Alex, a tua alma pertencesse ao hotel! Não pode mais sair daqui.Você agora é um escravo!”, grita Cristóvão desaparecendo junto com a mesa, o baralho e os seus amigos. “Não se preocupe rapaz, eles sempre dizem isso!” diz o senhor, “Está livre pra ir quando quiser...”. “E você? Posso lhe tirar daqui!”, diz Alex. “Não meu amigo, já estou muito velho e logo vou reencontrar minha querida Rose. Além do mais, esse hotel precisa de alguém lúcido para ajudar forasteiros como você! Mas vá e seja feliz em sua nova vida, e largue esses malditos jogos!” . “Pode deixar...”, diz Alex. “Adeus querido... sei que não sou real como ela, mas o que senti por você era real...”, diz Júlia lagrimando e desaparecendo.
Alex pega suas coisas sobe na moto e segue a estrada. O sol nascerá em poucos minutos e mesmo passando a noite com insônia, ele parece bem disposto a só descansar quando finalmente encontrar uma nova cidade. Pode não ter conseguido sua antiga vida de volta, mas o que o espera no fim da estrada é uma vida nova, e talvez muito melhor.

sábado, junho 09, 2007

NOVOS CONTOS EM BREVE!

Estou trabalhando em novos contos para o meu blog! Aguardem!!!

[]'s

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Bem vindo a 2007!

2006 foi um ano um pouco estranho pra mim, passei por situações não muito boas que foram benéficas de certa forma. Mas não estou muito afim de falar disso, então vamos mudar de assunto...
Quando criança pensava que depois do ano 2000, se o mundo nao acabasse ,viveríamos num futuro com carros voadores, realidade virtual, robôs que fariam serviços domésticos contatos com civilizações de outros planetas, etc. Algo parecido com o 5 elemento. Até agora nem tudo isso aconteceu. Claro, no Japão a robótica está tendo um grande avanço e a biotecnologia também. Realidade virtual como nos filmes da série Matrix e WebMaster(outro filme de sci-fi muito bom!) ainda estão em fase de desenvolvimento, mas já existem bons simuladores de realidade virtual por aí. como videogames, internet, simuladores de parques de diversão e, claro, a Mídia que em certas ocasiões nós mostra um mundo maravilhoso que não existe(mas isso já é assunto pra outra ocasião). Ainda não mantemos contatos diretos com povos extra-terrestres, mas talvez isso não demore tanto para acontecer. De certa forma estamos vivendo num futuro fantástico que para nossos antepassados era impossível.
Bom chega por hoje, feliz 2007 para todos e quem começou o ano ruim que termine bem e quem começou o ano bem que termine melhor ainda! Agora é esperar para ver o que acontecerá nesse novo ano!
[]'s

segunda-feira, novembro 20, 2006

FANTASMAS DO PASSADO - Conto

Após assassinar sua antiga esposa por motivo de infidelidade, Elias decide recomeçar sua vida com uma nova esposa e uma filha. Porém ao ver a semelhança da nova boneca de sua filha com sua antiga esposa, percebe que o passado não quer ser esquecido e está disposto a perseguí-lo aonde for, mesmo que para isso precise atravessar as portas da Fuga da Sanidade.

FANTASMAS DO PASSADO Por Rodrigo Carvalho®

Elias ainda se lembra da última vez que esteve com ela. Era domingo e estava chovendo. Eles dois se abraçavam na cama nus, um acariciando o outro enquanto seus olhares se cruzavam profundamente como se conversassem, uma bela conversa que não podia ser ouvida, apenas percebida.
Carla era tudo que Elias havia desejado: bonita, jovem simpática, decidida e inteligente. Mas o que ele por pura ingenuidade – ou amor – não sabia era que ela, como toda pessoa, tinha seus defeitos e ele só veio descobrir isso ao vê-la na cama com outro homem. Ainda se lembra do forte sentimento de ódio que teve ao ver ao ver aquela cena. Elias sempre fora um homem calmo, mas neste momento ele sentiu toda raiva guardada em sua alma tomar conta de seu corpo. O homem – um colega de trabalho de Carla – fugiu assustado enquanto que ela não teve a mesma sorte e foi brutalmente espancada até a morte pelo seu marido revoltado. Ao tomar noção do que fizera, Elias, arrependido, chorou feito uma criança, assumiu o homicídio e foi preso.
Os anos se passaram e ele foi solto sob condicional. Casou-se de novo com uma bela moça, chamada Juliana. Em certos aspectos ela lembrava Carla e era por isso que ele a queria. Uma vez Juliana lhe perguntou sobre seu passado e o que ele fez para ser preso, Elias, tentando não tocar no assunto, pediu para não falar sobre isso, mas ela insistiu e ele, querendo fugir do assunto logo, disse que foi por brigar num bar.
Com muito esforço e ajuda de alguns velhos amigos, Elias conseguiu reconstruir sua vida e hoje ele é gerente de uma agência de publicidade. Também ganhou um belo presente do destino, uma filhinha chamada Sara, hoje com quatro anos.
Às vezes ainda se lembra de Carla e dos planos que tinham juntos, mas quando olha para sua nova vida tenta esquecer o passado. Porém, às vezes, o passado não quer ser esquecido e nos persegue como uma sombra.
Elias e Juliana faziam a cama do quarto balançar com seu sexo selvagem. Ela por cima dele com seu gemido cheio de volúpia o deixava próximo do orgasmo. Ele fechou os olhos apenas sentindo o prazer que vinha do meio de suas coxas. O cheiro dela parecia um aroma de tão suave, porém aos poucos ele ia mudando assim como o gemido de Juliana. Parecia ser outra pessoa, também familiar. Isso o fez abrir os olhos e para sua surpresa, já não era mais Juliana quem ele penetrava e sim Carla. Assustado ele gritou e empurrou-a para trás.
“Você ficou maluco!”, gritou Juliana. Elias então percebera que aquilo não passara de uma ilusão. “Desculpe querida...”, disse ele, “É que por algum instante eu pensei que fosse outra pessoa...”, “Ah, então você anda com alguma vagabunda por aí, né?”, gritou ela de novo. “Não é nada disso...” respondeu ele, “Acho que estou muito cansado pra isso hoje!Vamos deixar pra outra hora... eu preciso descansar!”. Juliana, ainda nervosa, tentou compreender e se deitou na cama de lado, virando o corpo em direção a janela. A imagem de Carla ficou na cabeça de Elias e isso o fez ter pesadelos com ela. Sonhava que a via chorando por não estar em paz e que ele iria pagar caro por isso. Depois via cenas do passado em que ambos se divertiam e riam. Ele era feliz com ela e isso o fez acordar triste e lagrimando.
A manhã chegou, era sábado e ele e Sara estavam na sala assistindo desenhos animados enquanto Juliana preparava o almoço para logo em seguida terminar de fazer os preparativos para a festa de aniversario da filha, que seria no dia seguinte. “O que minha princesa vai querer esse ano?”, perguntou com uma voz carinhosa e postura paterna. “Não sei ainda...”, respondeu a menina. Sua dúvida acabou quando nesse momento apareceu o comercial de uma nova boneca no mercado que tava ganhando fama entre as meninas. “Pai, já sei! Vou querer uma boneca Carla!”, disse a menina com muito entusiasmo. Quando Elias olhou para a TV viu que o rosto da boneca era muito familiar. Lembrava muito o rosto de Carla: fino com as bochechas, os olhos verdes e o sorriso perfeito que, segundo Elias, era diferente dos outros sorrisos perfeitos por possuir algo em especial que nem ele sabia ao certo explicar. Ela sorria para ele dizendo com uma voz mecânica e feminina “Quero ficar com você pra sempre!”. Seu coração bateu mais rápido e seu corpo começou a suar frio. “Pai? O senhor está bem?”, perguntou a menina. Elias estava paralisado e perdido em lembranças traumáticas. Seus olhos não piscavam. Estavam fixos na TV e no sorriso da boneca que dizia mais uma vez “Quero ficar com você pra sempre!”. “Ô pai?”, gritou a menina despertando Elias de suas lembranças. “Desculpa filha.” , disse Elias ,“o papai anda meio cansado ultimamente...”.
“Elias, você anda muito estranho! Será que é peso na consciência por algo de errado que anda fazendo?”, disse Juliana vindo da cozinha. “Aonde você ta querendo chegar?”, perguntou Elias aumentando o tom de voz. “Você sabe do que eu to falando... talvez ande fazendo hora extra no trabalho com alguma estagiária novinha... não é isso?”, disse Juliana levanto ainda mais o tom de voz. “Não vem com essa história de novo; principalmente na frente da Sara!”, disse Elias já furioso, mas tentando manter a calma. “Anda com as suas vagabundas pra lá e depois quer dar bom exemplo é?”, gritou Juliana. “Já chega!”, gritou Elias, “Minha paciência já está no limite! Não tenho mais saco para suas criancices! Eu não ando bem ultimamente por isso não me enche o saco por eu juro senão...”, “Senão o quê?! Vai me bater?! É isso?!”, gritou Juliana, “Pois então bate pra ti ver!! Eu juro que se tu encostar um dedo em mim eu sai dessa casa e levo a Sara comigo!!”. Elias saiu de casa batendo a porta enquanto Juliana ia atrás dele gritando e mandando ele voltar. Elias entrou no carro e saiu sem saber ao certo para onde ir, mas qualquer lugar calmo servia para aliviar o estresse.
Na pista viu longe um grande outdoor anunciando a boneca Carla. Suou frio ao ver aquele sorriso que antes lhe agradava, mas agora lhe trazia amargas lembranças e um sentimento de medo. “Só pode ser coincidência!”, pensava Elias. Mas isso também o fez lembrar do pedido de Sara. Ele tinha que comprar a boneca para ela mesmo pensando nas lembranças que ela podia lhe trazer. Parou numa loja de brinquedos e perguntou para um vendedor se eles tinham a tal boneca, porém o vendedor disse que a última havia acabado de ser vendida. Isso lhe trouxe um certo alívio momentâneo porque deveria procurar em outras lojas, mas pensou em dizer a Sara que não encontrou a boneca e comprou outra no lugar. Com certeza isso traria uma certa tristeza para Sara, mas logo ia passar. Despediu-se do vendedor aliviado dizendo que mais tarde voltava para comprar outra coisa para sua filha, porém antes de sair da loja o vendedor lhe chamou, “Senhor! Ainda temos uma!”, Elias virou para trás e viu a boneca nas mãos do vendedor contente por achar que acabou de fazer mais um cliente feliz. Elias meio assustado e sem reação pensou na alegria de sua filha quando visse a boneca; isso para ele não tinha preço! Sem pensar mais, decidiu comprar.
Ao voltar para casa sentia-se meio angustiado com a boneca embrulhada e em cima do banco do passageiro. A angústia se transformou num belo susto quando ela falou “Quero ficar com você pra sempre!”. O susto fez o batimento cardíaco de Elias acelerar juntamente com a velocidade do carro quando sem querer pisou fundo no acelerador quase causando um acidente fatal. Elias parou o carro perto de uma praça e violentamente rasgou o papel de presente que embrulhava o brinquedo, tirou a boneca da caixa às pressas, pegou a boneca e verificou se tinha pilha. Para seu alívio, duas pequenas pilhas encontravam-se em um pequeno compartimento nas costas da boneca. “Mas como a boneca falou se ninguém tocou nela?”, pensou ele. “Talvez seja defeito de fabricação ou algo assim...”, pensou novamente tentando manter-se calmo.
Guardou a boneca com bastante cuidado para não amassar mais a caixa do que já havia amassado. Voltou para o volante e ligou o rádio para tentar relaxar. Jornal local, mudou de canal até ouvir um clássico dos Rolling Stones que não ouvia há muito tempo: “Timeeee is on my side! Yes it’s![...]”. A música o animava até a boneca falar novamente “Nós ficaremos juntos para sempre meu amor!”, mas dessa vez sua voz não era robótica e fina coma de boneca, e sim uma voz humana e familiar, que ele também não ouvia há muito tempo...“[...]Timeeee is on my side! Yes it’s![...]”. Seu grito só não saiu mais alto porque foi abafado pela música. “[...]You’ll come back! You’ll come back to me... eeeeeeeee!”.
Parou o carro novamente e enfurecido pegou a boneca e jogou no lixo gritando “Nunca mais você vai incomodar a minha vida! Se não tivesse me traído poderíamos ainda estar juntos hoje! Com filhos até! Agora, sua vadia do Diabo, ME DEIXE EM PAZ!”. Ao olhar para os lados, um pequeno grupo de pessoas o observava curiosamente. Ficou envergonhado no momento, mas depois voltou para o carro resmungando “Sinto muito minha princesa, mas você vai ter que se contentar com um ursinho ou coisa parecida!”.
No dia seguinte não encontrou Juliana ao seu lado quando acordou. Viu a hora: 9:45. Concluiu que Juliana devia estar na aula de ginástica. Levantou-se e foi até a cozinha para tomar café, mas antes verificou se Sara estava bem. Ela ainda dormia profundamente. Depois do café ia comprar o presente da filha. Porém, pouco tempo depois, Juliana chegou com um belo sorriso no rosto. Parecia ter esquecido a briga do dia anterior – o que aliviou Elias. Até ele ver a boneca Carla na mão dela. “Querido! Olha que sorte eu tenho! Fui comprar uma boneca Carla para Sara, mas o estoque já havia acabado e provavelmente em todas as outras lojas também, mas como tenho muita sorte encontrei essa boneca Carla novinha e em perfeito estado numa lixeira na praça! Não é ótimo!”, disse Juliana “Só preciso dar uma arrumada nessa caixa que está um pouco amassada e passar uma fita. Vai ficar perfeito!”.
Elias olhava assustado a boneca que retribuía o olhar sorrindo de maneira irônica. Era o mesmo sorriso que já vinha de fábrica, porém dessa vez ele parecia sarcástico como se a boneca debochasse dele. Tudo que queria naquele momento era pegar aquela maldita boneca e quebrá-la em pedacinhos tão pequenos que seria impossível ser consertada. Mas teve que se conter.
Juliana arrumou a caixa e embrulhou-a e em seguida guardou para entregar à filha na hora da festa. Sara adorou o presente o que alegrou seu pai, mesmo este sabendo que cedo ou tarde Carla se manifestaria novamente. Se isso ocorreu realmente poucos podem provar, mas no dia seguinte as coisas naquela casa começaram a ficar muito estranhas: Sara não deixava a boneca por nada. Sempre a levando para todos os lugares, inclusive a escola. Afastou-se de suas amiguinhas e dizia que sua única amiga era Carla. Elias já flagrou ela e sua boneca conversando várias vezes. Ele não gostava daquilo e contava para Juliana, mas ela dizia que isso era normal. Elias jurava que o espírito de Carla estava dentro do corpo da boneca tentando estragar sua nova vida e talvez machucar sua esposa e filha. Isso ele não poderia permitir. Decidiu então jogar a boneca fora enquanto sua filha dormia. Isso lhe partiu o coração, mas era necessário.
Depois de ter feito voltou a dormir. Acordou tarde, quase se atrasa para o trabalho. Levantou-se às pressas e só aceitou ser interrompido quando Sara o chamou na cozinha. Elias desceu as escadas pensando em boas palavras para dar a filha que deveria estar chorando procurando a boneca. Mas se surpreendeu quando viu o sorriso de empolgação de sua filha. Surpreendeu-se mais ainda quando viu a boneca Carla sentada no seu lugar de costume na mesa de jantar. “Carla pediu para tomar café conosco!”, disse a menina, “Ela pode ficar no seu lugar, pai?”. Elias não teve resposta e Juliana respondeu por ele “Claro que sim minha filha... agora tome seu café para não se atrasar pra aula!”. Elias se aprontou e saiu de casa assustado pensando no que poderia fazer. “O único jeito é quebrá-la completamente quando Sara estiver dormindo!”, pensou ele. Pena que sua decisão foi tarde demais. Ao chegar em casa à noite viu um corpo de bombeiros na frente de sua casa que se encontrava em chamas. Nem Juliana e nem Sara sobreviveram. A causa do incêndio ainda é desconhecida. Mas não para Elias que, de joelhos, derramava lágrimas de agonia e ódio. Desde esse dia ele nunca mais foi o mesmo. Caiu numa profunda depressão e pensamentos suicidas vinham freqüentemente. Tomou vários antidepressivos, mas logo se entregou a depressão envenenando-se.
Dias depois descobriram que o incêndio foi causado por um defeito na fiação elétrica. Para Elias foi tudo culpa de Carla que havia possuído o corpo de uma boneca para se vingar. Foi essa a versão que ele deu a seus amigos e parentes. Todos acharam que ele estava louco. Porém o universo é cheio de mistérios e não se pode ter certeza de que ele não estava certo! Será que Elias era louco ou Carla realmente voltou para se vingar no corpo de uma boneca? Essa pergunta paira sobre a mente dos mais curiosos, mas os céticos acreditam que tudo que o assombrou foi o remorso de um crime passado.

ZONA DA ANGÚSTIA - Conto

Após o suícidio do seu melhor amigo, Márcio muda-se para seu apartamento, um lugar onde já ocorreram muitos outros suicídios. Pesadelos estranhos começam a perturbar o novo morador que passa a acreditar que tudo tem ligação com um espelho antigo que o levará para uma estranha viagem na Fuga da Sanidade.

ZONA DA ANGÚSTIA Por Rodrigo Carvalho®

Desde que decidi me mudar para este apartamento tenho ouvido estórias sobre ele. Localiza-se em um prédio velho onde já houve muitos suicídios. Dizem que este prédio é assombrado pelos espíritos dos suicidas. Não acredito muito em assombrações e acho que se visse uma não ficaria com tanto medo assim. Meus amigos mais supersticiosos tentam me convencer de que, talvez, esses espíritos malignos tenham feito Fernando se suicidar. Fico muito nervoso quando eles dizem isso, será que não tem respeito pelo meu amigo? Será que não percebem que sua família já sofreu demais para ter que ouvir essas brincadeiras de mau gosto? O último que falou isso eu o agredi com socos e pontapés, pois já não agüentava mais essas estórias. Todos sabem que Fernando era quase um irmão para mim. Nós crescemos juntos, estudamos nas mesmas escolas e até namoramos duas gêmeas no colegial. Eu fui seu padrinho de casamento e padrinho de sua filha. Amanda, sua esposa, era uma mulher adorável, meiga e muito bonita. Sua filha, Sabrina, também puxara a beleza da mãe e era uma criança inteligente e brincalhona. Eles eram sem dúvida, uma família feliz. Mas infelizmente essa bela estória teve um final trágico.
Há um ano atrás, Fernando e sua família chegavam da fazenda quando um carro desgovernado os atingiu matando sua esposa e filha. Desde desse dia ele nunca mais voltou a sorrir. Sofri ao seu lado como sempre fizera quando algo ruim acontecia. Sofri como se fosse minha esposa e filha que tivessem morrido, mesmo nunca tendo casado.
A única pessoa a quem ele ainda conversava era comigo, mas já não existia alegria em sua conversa. Seus olhos se enchiam de lágrimas todas as vezes que se lembrava delas. Eu já não agüentava mais vê-lo desse jeito e com muito esforço e com o apoio de seus familiares e de nossos amigos, convencemos Fernando a fazer terapia. As coisas melhoraram um pouco. Ele já aceitava conversar com outras pessoas e sorria às vezes.
Estava tudo indo bem até que um dia me telefonaram dizendo que ele se atirara da janela do seu apartamento; que fica no último andar em um dos prédios mais altos da cidade. Seu rosto estava irreconhecível e ele só foi identificado pelos seus documentos e sua aliança.
Em seu testamento ele disse que deixava o apartamento e todas as suas coisas para mim. Nunca gostei deste prédio. Ele é muito antigo e já houve muito sofrimento aqui. Mas não podia negar tal presente vindo de alguém que significava muito para mim.
Desde de mudei-me para cá, tenho tido sonhos estranhos com um espelho antigo que encontrei no quarto do antigo casal; que agora é onde durmo. Esse espelho me impressionou desde a primeira vez que o vi pelo visual grotesco e assustador. Talvez fosse isso o motivo dos pesadelos.
O cenário de todos os sonhos era aquele apartamento. Via pessoas andando; desconhecidas para mim. Também ouvia conversas e o espelho sempre aparecia clareando o quarto com uma luz azul-mórbida vinda de dentro dele. Às vezes via rostos e escutava sussurros vindos de lá. Mesmo cético como sou, não conseguia me conter e acordava assustado, lavava o rosto e voltava a dormir. Geralmente esses pesadelos voltavam, mas depois eram substituídos por sonhos mais confortantes e alegres.
Assim como crescia o meu medo, a minha curiosidade de saber o que havia atrás daquele espelho crescia também. Aos poucos fui me acostumando com os pesadelos e parei de ter tanto medo. Agora só restava saciar minha curiosidade.
Numa noite quando tivera meu sono novamente invadido por tais horrores que se escondem no fundo de nosso inconsciente, descidi atravessar a luz mórbida que vinha do espelho. Senti uma força me puxar em uma velocidade incrível. Em seguida me encontrava dentre águas que não pareciam ter fundo. Mesmo não sendo anfíbio, conseguia respirar tão bem quanto um. Comecei a nadar para cima até finalmente ver uma luz mórbida semelhante a do espelho. Sai dentro de um tipo de piscina com bordas de pedra dentro de uma grande câmara. Havia quatro esculturas de belas mulheres nuas usando colares, pulseiras em forma de serpente e chapeis largos sem abas, semelhantes aos dos antigos faraós. Seus corpos eram belos, porém havia certos detalhes que insinuavam ossos saindo como suas colunas e sua caixa torácica que abaixo de seus belos e firmes seios exibiam-se espinhas tentando rasgar a pele. Todas eram feitas de um cristal verde-escuro. Havia uma em cada ponta da grande piscina. Cada uma delas segurava uma tocha com um fogo da mesma cor que vi no espelho e quando subi aqui; aquele azul-mórbido. Sai da piscina e fui explorar a câmara. Havia quatro colunas sustentando o forro que se encontrava oculto nas sombras acima. As colunas eram detalhadas com rostos grotescos de pessoas deformadas sofrendo em uma agonia eterna. As paredes eram ainda mais assustadoras. Também eram detalhadas com rostos de pessoas deformadas sofrendo, mas estas se confundiam e misturavam com outras formas demoníacas que não podem ser descritas com palavras. Algo como um pesadelo de H.R. Giger, com olhos, ossos e demônios surgindo em meio a pessoas nuas e em poses sensuais entre genitais - ou algo que lembre um - e corpos humanos nus com cabeças e membros de criaturas vindas da mente de um gênio louco.
Também vi uma passagem em forma de arco. De dentro dela uma profunda e misteriosa escuridão me intimidava e impedia-me de atravessar. Porém, vendo que não havia outro caminho, tive que superar meu medo e seguir em frente pela única saída aparente. Não sei se fiz a escolha certa, mas ao entrar naquela escuridão úmida onde não conseguia nem ver a ponta do meu nariz, senti que cruzava o limite da sanidade para sempre.
Segui por um corredor pedregoso e irregular em meio às trevas infinitas por um longo tempo. As pontas das pedras machucavam meus pés e estava preste a sufocar pelo ambiente abafado. Até que finalmente encontrei a saída. Já quase sem forças consegui atravessa-la e tomar um pouco de fôlego. Até o ar não era agradável e apesar de causar menos agonia que o corredor, ainda assim era sufocante.
A primeira coisa que vi foi um deserto coberto de brumas. O céu era escuro e sem nuvens e estrelas. Apenas um cinza-escuro. Deparei-me com uma escada que descia uns cem ou mais degraus. Eles pareciam serem feitos de ossos e havia chifres nos lados de cada degrau que deveriam ter cerca de uns 20 metros de largura. Olhei para cima e vi duas grandes estátuas, uma de cada lado, que deveriam ser feitas do mesmo material usado para fazer as quatro esculturas da câmara que deixara. Elas tinham o corpo de belas moças nuas e cabeças de lobos ferozes e empunhavam lanças afiadas. Vi também que à parte de cima da caverna onde estava era achatada - quase um cubo perfeito - e sua arquitetura lembrava as dos templos maias.
Vendo que não tinha outro caminho, decidi descer a escada que parecia não ter fim. Já bastante cansado e com as pernas doloridas, escorreguei nos últimos cinco ou seis degraus e rolei até cair com a cara na areia do deserto. Um cheiro horrível, semelhante à carniça infestava o ar me causando ânsia de vômito. Levantei-me e segui, sem direção, pelo deserto em meio às brumas que me cobriam e aumentava ainda mais o meu desespero.
Estava realmente muito cansado, mas o meu medo e a vontade de sair daquele lugar, planeta, dimensão, inferno, ou seja, lá o que for, era muito superior ao meu cansaço. Por isso continuei andando, mesmo sabendo que talvez nunca mais fosse voltar para minha casa. Rezava para que tudo não passasse de um horrível pesadelo e que pudesse acordar. Porém foram palavras e vão, pois realmente era um pesadelo, mas do tipo que não posso controlar e talvez não possa acordar.
Já estava para desistir e tentar de alguma forma me suicidar e acabar com aquilo tudo de uma vez. Até que vi uma luz azul. Às pressas, me aproximei mais e vi grandes colunas brilhando. Elas não tinham um tamanho certo, umas eram imensamente altas e outras eram bem mais baixas, como edifícios. Provavelmente deveria ser uma cidade. Como já disse, minha força de vontade era tão grande que criei forças para chegar até a possível cidade. Claro que pensei na forma de vida inteligente que poderia encontrar lá. Baseando-me pelas esculturas e desenhos que vi no templo, certamente não deveria ser das mais amigáveis. Mas essa era talvez minha única chance de voltar para casa.
Já a poucos metros da cidade, vi formas humanas caminhando para diversas direções. Pelo menos de longe não pareciam com monstros demoníacos e hostis, sedentos de sangue e carne fresca, que vieram à minha mente. Isso aumentou minhas esperanças por um curto período de tempo, pois logo percebi que as imensas colunas não se tratavam de prédios e sim de diamantes azuis. Em outras palavras, não era exatamente uma cidade. Mas ainda existia vida inteligente. Só me restava saber se eles estariam dispostos a ajudar.
Ao entrar na tal “cidade”, vi a forma de vida humanóide. Eram muito semelhantes aos humanos, porém uma sombra cobria seu corpo deixando apenas pequenos detalhes escapar. Detalhes como: braços, pernas e um pouco da cintura e em alguns dos ombros. Mas os rostos estavam totalmente cobertos pela escuridão. Elas se assustavam com seus reflexos produzidos pelos diamantes. Acho que eram os espectros das pessoas que se suicidaram.
Eu tentei pedir ajuda a elas, mas era ignorado. Nenhuma sequer me olhou. Era como se fosse invisível. Foi quando visualizei de longe um desses espectros sentado em uma pedra de diamante. Esse me pareceu bem familiar. Ao me aproximar confirmei minha teoria sobre esses seres vi Fernando. Mesmo com seu rosto e parte de seu corpo oculto, eu o reconheci. Corri até ele. Gritei por seu nome. Ele me olhou e por um tempo ficou me encarando com seu olhar, que não poderia ver, apenas imaginar pela forma como ele levantou a cabeça. Ajudei a refrescar sua mente me identificando. Demorou um pouco até ele me reconhecer dizendo de forma bem distorcida “Márcio?”, o meu nome. Ele se levantou e eu o abracei como se ele não estivesse realmente morto. Ele por outro lado não me abraçou. Apenas ficou parado, em pé. Disse novamente com sua voz distorcida que eu não deveria estar ali, pois não estava morto. Eu perguntei por que ele havia se suicidado. Sabia que seu sofrimento por ter perdido sua família era grande, mas a vida continua. Ele me olhou no rosto e disse que procurava por respostas e acabou encontrando apenas um deserto com outros sofredores que nem ele. Todos em busca das mesmas respostas que talvez nunca existam. Em seguida me encaminhou até o outro lado da cidade de diamantes. Chegamos até um diamante de cerca de três metros de altura e dois de largura e brilhava mais que os outros. O reflexo de Fernando produzido pelo diamante estava como ele era antes de se matar, com vida e sem aquele manto de sombra que cobria seu corpo. Ele sorria e dizia que deveria seguir e ir voltar a minha vida e nunca cometer o mesmo erro que ele cometeu. Despedi-me dele e atravessei o diamante. Estava voando em meio a um túnel de luzes azuis em alta velocidade. No fim dele tinha uma luz branca. Escutei uma voz feminina falando comigo. Ela me contava coisas que pareciam ser pessoais.
A luz ficava cada vez mais perto até que abri os olhos e me deparei com a luz de uma lâmpada no teto de um quarto branco. Pelos objetos que vi ao redor, deveria estar em um hospital. A voz feminina que não parava de falar vinha de uma enfermeira que estava de costas para mim. Ela tinha pele morena-clara e cabelos ondulados e compridos. Perguntei onde estava e ela se virou assustada como se eu fosse um cadáver voltando à vida. Logo em seguida ela chamou um médico e tudo foi explicado para mim.
Estive em coma por uns seis meses. Fui encontrado desacordado em meu apartamento por uns amigos e levado para lá.
Novamente tentaram convencer-me a abandonar aquele apartamento assombrado e neguei mais uma vez. Com fantasmas ou sem fantasmas ainda era um presente do meu melhor amigo e nunca deixaria outro morar lá. Às vezes presencio fenômenos estranhos, mas não me impressiono como antigamente. Talvez por agora conhecer o que é desconhecido para muitos. Moro lá até hoje, convivendo com aqueles que procuraram respostas do outro lado e só encontraram dor e sofrimento. Confesso que já pensei em me matar, mas quando me mudei para cá, aprendi que só há respostas na vida.