segunda-feira, novembro 20, 2006

FANTASMAS DO PASSADO - Conto

Após assassinar sua antiga esposa por motivo de infidelidade, Elias decide recomeçar sua vida com uma nova esposa e uma filha. Porém ao ver a semelhança da nova boneca de sua filha com sua antiga esposa, percebe que o passado não quer ser esquecido e está disposto a perseguí-lo aonde for, mesmo que para isso precise atravessar as portas da Fuga da Sanidade.

FANTASMAS DO PASSADO Por Rodrigo Carvalho®

Elias ainda se lembra da última vez que esteve com ela. Era domingo e estava chovendo. Eles dois se abraçavam na cama nus, um acariciando o outro enquanto seus olhares se cruzavam profundamente como se conversassem, uma bela conversa que não podia ser ouvida, apenas percebida.
Carla era tudo que Elias havia desejado: bonita, jovem simpática, decidida e inteligente. Mas o que ele por pura ingenuidade – ou amor – não sabia era que ela, como toda pessoa, tinha seus defeitos e ele só veio descobrir isso ao vê-la na cama com outro homem. Ainda se lembra do forte sentimento de ódio que teve ao ver ao ver aquela cena. Elias sempre fora um homem calmo, mas neste momento ele sentiu toda raiva guardada em sua alma tomar conta de seu corpo. O homem – um colega de trabalho de Carla – fugiu assustado enquanto que ela não teve a mesma sorte e foi brutalmente espancada até a morte pelo seu marido revoltado. Ao tomar noção do que fizera, Elias, arrependido, chorou feito uma criança, assumiu o homicídio e foi preso.
Os anos se passaram e ele foi solto sob condicional. Casou-se de novo com uma bela moça, chamada Juliana. Em certos aspectos ela lembrava Carla e era por isso que ele a queria. Uma vez Juliana lhe perguntou sobre seu passado e o que ele fez para ser preso, Elias, tentando não tocar no assunto, pediu para não falar sobre isso, mas ela insistiu e ele, querendo fugir do assunto logo, disse que foi por brigar num bar.
Com muito esforço e ajuda de alguns velhos amigos, Elias conseguiu reconstruir sua vida e hoje ele é gerente de uma agência de publicidade. Também ganhou um belo presente do destino, uma filhinha chamada Sara, hoje com quatro anos.
Às vezes ainda se lembra de Carla e dos planos que tinham juntos, mas quando olha para sua nova vida tenta esquecer o passado. Porém, às vezes, o passado não quer ser esquecido e nos persegue como uma sombra.
Elias e Juliana faziam a cama do quarto balançar com seu sexo selvagem. Ela por cima dele com seu gemido cheio de volúpia o deixava próximo do orgasmo. Ele fechou os olhos apenas sentindo o prazer que vinha do meio de suas coxas. O cheiro dela parecia um aroma de tão suave, porém aos poucos ele ia mudando assim como o gemido de Juliana. Parecia ser outra pessoa, também familiar. Isso o fez abrir os olhos e para sua surpresa, já não era mais Juliana quem ele penetrava e sim Carla. Assustado ele gritou e empurrou-a para trás.
“Você ficou maluco!”, gritou Juliana. Elias então percebera que aquilo não passara de uma ilusão. “Desculpe querida...”, disse ele, “É que por algum instante eu pensei que fosse outra pessoa...”, “Ah, então você anda com alguma vagabunda por aí, né?”, gritou ela de novo. “Não é nada disso...” respondeu ele, “Acho que estou muito cansado pra isso hoje!Vamos deixar pra outra hora... eu preciso descansar!”. Juliana, ainda nervosa, tentou compreender e se deitou na cama de lado, virando o corpo em direção a janela. A imagem de Carla ficou na cabeça de Elias e isso o fez ter pesadelos com ela. Sonhava que a via chorando por não estar em paz e que ele iria pagar caro por isso. Depois via cenas do passado em que ambos se divertiam e riam. Ele era feliz com ela e isso o fez acordar triste e lagrimando.
A manhã chegou, era sábado e ele e Sara estavam na sala assistindo desenhos animados enquanto Juliana preparava o almoço para logo em seguida terminar de fazer os preparativos para a festa de aniversario da filha, que seria no dia seguinte. “O que minha princesa vai querer esse ano?”, perguntou com uma voz carinhosa e postura paterna. “Não sei ainda...”, respondeu a menina. Sua dúvida acabou quando nesse momento apareceu o comercial de uma nova boneca no mercado que tava ganhando fama entre as meninas. “Pai, já sei! Vou querer uma boneca Carla!”, disse a menina com muito entusiasmo. Quando Elias olhou para a TV viu que o rosto da boneca era muito familiar. Lembrava muito o rosto de Carla: fino com as bochechas, os olhos verdes e o sorriso perfeito que, segundo Elias, era diferente dos outros sorrisos perfeitos por possuir algo em especial que nem ele sabia ao certo explicar. Ela sorria para ele dizendo com uma voz mecânica e feminina “Quero ficar com você pra sempre!”. Seu coração bateu mais rápido e seu corpo começou a suar frio. “Pai? O senhor está bem?”, perguntou a menina. Elias estava paralisado e perdido em lembranças traumáticas. Seus olhos não piscavam. Estavam fixos na TV e no sorriso da boneca que dizia mais uma vez “Quero ficar com você pra sempre!”. “Ô pai?”, gritou a menina despertando Elias de suas lembranças. “Desculpa filha.” , disse Elias ,“o papai anda meio cansado ultimamente...”.
“Elias, você anda muito estranho! Será que é peso na consciência por algo de errado que anda fazendo?”, disse Juliana vindo da cozinha. “Aonde você ta querendo chegar?”, perguntou Elias aumentando o tom de voz. “Você sabe do que eu to falando... talvez ande fazendo hora extra no trabalho com alguma estagiária novinha... não é isso?”, disse Juliana levanto ainda mais o tom de voz. “Não vem com essa história de novo; principalmente na frente da Sara!”, disse Elias já furioso, mas tentando manter a calma. “Anda com as suas vagabundas pra lá e depois quer dar bom exemplo é?”, gritou Juliana. “Já chega!”, gritou Elias, “Minha paciência já está no limite! Não tenho mais saco para suas criancices! Eu não ando bem ultimamente por isso não me enche o saco por eu juro senão...”, “Senão o quê?! Vai me bater?! É isso?!”, gritou Juliana, “Pois então bate pra ti ver!! Eu juro que se tu encostar um dedo em mim eu sai dessa casa e levo a Sara comigo!!”. Elias saiu de casa batendo a porta enquanto Juliana ia atrás dele gritando e mandando ele voltar. Elias entrou no carro e saiu sem saber ao certo para onde ir, mas qualquer lugar calmo servia para aliviar o estresse.
Na pista viu longe um grande outdoor anunciando a boneca Carla. Suou frio ao ver aquele sorriso que antes lhe agradava, mas agora lhe trazia amargas lembranças e um sentimento de medo. “Só pode ser coincidência!”, pensava Elias. Mas isso também o fez lembrar do pedido de Sara. Ele tinha que comprar a boneca para ela mesmo pensando nas lembranças que ela podia lhe trazer. Parou numa loja de brinquedos e perguntou para um vendedor se eles tinham a tal boneca, porém o vendedor disse que a última havia acabado de ser vendida. Isso lhe trouxe um certo alívio momentâneo porque deveria procurar em outras lojas, mas pensou em dizer a Sara que não encontrou a boneca e comprou outra no lugar. Com certeza isso traria uma certa tristeza para Sara, mas logo ia passar. Despediu-se do vendedor aliviado dizendo que mais tarde voltava para comprar outra coisa para sua filha, porém antes de sair da loja o vendedor lhe chamou, “Senhor! Ainda temos uma!”, Elias virou para trás e viu a boneca nas mãos do vendedor contente por achar que acabou de fazer mais um cliente feliz. Elias meio assustado e sem reação pensou na alegria de sua filha quando visse a boneca; isso para ele não tinha preço! Sem pensar mais, decidiu comprar.
Ao voltar para casa sentia-se meio angustiado com a boneca embrulhada e em cima do banco do passageiro. A angústia se transformou num belo susto quando ela falou “Quero ficar com você pra sempre!”. O susto fez o batimento cardíaco de Elias acelerar juntamente com a velocidade do carro quando sem querer pisou fundo no acelerador quase causando um acidente fatal. Elias parou o carro perto de uma praça e violentamente rasgou o papel de presente que embrulhava o brinquedo, tirou a boneca da caixa às pressas, pegou a boneca e verificou se tinha pilha. Para seu alívio, duas pequenas pilhas encontravam-se em um pequeno compartimento nas costas da boneca. “Mas como a boneca falou se ninguém tocou nela?”, pensou ele. “Talvez seja defeito de fabricação ou algo assim...”, pensou novamente tentando manter-se calmo.
Guardou a boneca com bastante cuidado para não amassar mais a caixa do que já havia amassado. Voltou para o volante e ligou o rádio para tentar relaxar. Jornal local, mudou de canal até ouvir um clássico dos Rolling Stones que não ouvia há muito tempo: “Timeeee is on my side! Yes it’s![...]”. A música o animava até a boneca falar novamente “Nós ficaremos juntos para sempre meu amor!”, mas dessa vez sua voz não era robótica e fina coma de boneca, e sim uma voz humana e familiar, que ele também não ouvia há muito tempo...“[...]Timeeee is on my side! Yes it’s![...]”. Seu grito só não saiu mais alto porque foi abafado pela música. “[...]You’ll come back! You’ll come back to me... eeeeeeeee!”.
Parou o carro novamente e enfurecido pegou a boneca e jogou no lixo gritando “Nunca mais você vai incomodar a minha vida! Se não tivesse me traído poderíamos ainda estar juntos hoje! Com filhos até! Agora, sua vadia do Diabo, ME DEIXE EM PAZ!”. Ao olhar para os lados, um pequeno grupo de pessoas o observava curiosamente. Ficou envergonhado no momento, mas depois voltou para o carro resmungando “Sinto muito minha princesa, mas você vai ter que se contentar com um ursinho ou coisa parecida!”.
No dia seguinte não encontrou Juliana ao seu lado quando acordou. Viu a hora: 9:45. Concluiu que Juliana devia estar na aula de ginástica. Levantou-se e foi até a cozinha para tomar café, mas antes verificou se Sara estava bem. Ela ainda dormia profundamente. Depois do café ia comprar o presente da filha. Porém, pouco tempo depois, Juliana chegou com um belo sorriso no rosto. Parecia ter esquecido a briga do dia anterior – o que aliviou Elias. Até ele ver a boneca Carla na mão dela. “Querido! Olha que sorte eu tenho! Fui comprar uma boneca Carla para Sara, mas o estoque já havia acabado e provavelmente em todas as outras lojas também, mas como tenho muita sorte encontrei essa boneca Carla novinha e em perfeito estado numa lixeira na praça! Não é ótimo!”, disse Juliana “Só preciso dar uma arrumada nessa caixa que está um pouco amassada e passar uma fita. Vai ficar perfeito!”.
Elias olhava assustado a boneca que retribuía o olhar sorrindo de maneira irônica. Era o mesmo sorriso que já vinha de fábrica, porém dessa vez ele parecia sarcástico como se a boneca debochasse dele. Tudo que queria naquele momento era pegar aquela maldita boneca e quebrá-la em pedacinhos tão pequenos que seria impossível ser consertada. Mas teve que se conter.
Juliana arrumou a caixa e embrulhou-a e em seguida guardou para entregar à filha na hora da festa. Sara adorou o presente o que alegrou seu pai, mesmo este sabendo que cedo ou tarde Carla se manifestaria novamente. Se isso ocorreu realmente poucos podem provar, mas no dia seguinte as coisas naquela casa começaram a ficar muito estranhas: Sara não deixava a boneca por nada. Sempre a levando para todos os lugares, inclusive a escola. Afastou-se de suas amiguinhas e dizia que sua única amiga era Carla. Elias já flagrou ela e sua boneca conversando várias vezes. Ele não gostava daquilo e contava para Juliana, mas ela dizia que isso era normal. Elias jurava que o espírito de Carla estava dentro do corpo da boneca tentando estragar sua nova vida e talvez machucar sua esposa e filha. Isso ele não poderia permitir. Decidiu então jogar a boneca fora enquanto sua filha dormia. Isso lhe partiu o coração, mas era necessário.
Depois de ter feito voltou a dormir. Acordou tarde, quase se atrasa para o trabalho. Levantou-se às pressas e só aceitou ser interrompido quando Sara o chamou na cozinha. Elias desceu as escadas pensando em boas palavras para dar a filha que deveria estar chorando procurando a boneca. Mas se surpreendeu quando viu o sorriso de empolgação de sua filha. Surpreendeu-se mais ainda quando viu a boneca Carla sentada no seu lugar de costume na mesa de jantar. “Carla pediu para tomar café conosco!”, disse a menina, “Ela pode ficar no seu lugar, pai?”. Elias não teve resposta e Juliana respondeu por ele “Claro que sim minha filha... agora tome seu café para não se atrasar pra aula!”. Elias se aprontou e saiu de casa assustado pensando no que poderia fazer. “O único jeito é quebrá-la completamente quando Sara estiver dormindo!”, pensou ele. Pena que sua decisão foi tarde demais. Ao chegar em casa à noite viu um corpo de bombeiros na frente de sua casa que se encontrava em chamas. Nem Juliana e nem Sara sobreviveram. A causa do incêndio ainda é desconhecida. Mas não para Elias que, de joelhos, derramava lágrimas de agonia e ódio. Desde esse dia ele nunca mais foi o mesmo. Caiu numa profunda depressão e pensamentos suicidas vinham freqüentemente. Tomou vários antidepressivos, mas logo se entregou a depressão envenenando-se.
Dias depois descobriram que o incêndio foi causado por um defeito na fiação elétrica. Para Elias foi tudo culpa de Carla que havia possuído o corpo de uma boneca para se vingar. Foi essa a versão que ele deu a seus amigos e parentes. Todos acharam que ele estava louco. Porém o universo é cheio de mistérios e não se pode ter certeza de que ele não estava certo! Será que Elias era louco ou Carla realmente voltou para se vingar no corpo de uma boneca? Essa pergunta paira sobre a mente dos mais curiosos, mas os céticos acreditam que tudo que o assombrou foi o remorso de um crime passado.

ZONA DA ANGÚSTIA - Conto

Após o suícidio do seu melhor amigo, Márcio muda-se para seu apartamento, um lugar onde já ocorreram muitos outros suicídios. Pesadelos estranhos começam a perturbar o novo morador que passa a acreditar que tudo tem ligação com um espelho antigo que o levará para uma estranha viagem na Fuga da Sanidade.

ZONA DA ANGÚSTIA Por Rodrigo Carvalho®

Desde que decidi me mudar para este apartamento tenho ouvido estórias sobre ele. Localiza-se em um prédio velho onde já houve muitos suicídios. Dizem que este prédio é assombrado pelos espíritos dos suicidas. Não acredito muito em assombrações e acho que se visse uma não ficaria com tanto medo assim. Meus amigos mais supersticiosos tentam me convencer de que, talvez, esses espíritos malignos tenham feito Fernando se suicidar. Fico muito nervoso quando eles dizem isso, será que não tem respeito pelo meu amigo? Será que não percebem que sua família já sofreu demais para ter que ouvir essas brincadeiras de mau gosto? O último que falou isso eu o agredi com socos e pontapés, pois já não agüentava mais essas estórias. Todos sabem que Fernando era quase um irmão para mim. Nós crescemos juntos, estudamos nas mesmas escolas e até namoramos duas gêmeas no colegial. Eu fui seu padrinho de casamento e padrinho de sua filha. Amanda, sua esposa, era uma mulher adorável, meiga e muito bonita. Sua filha, Sabrina, também puxara a beleza da mãe e era uma criança inteligente e brincalhona. Eles eram sem dúvida, uma família feliz. Mas infelizmente essa bela estória teve um final trágico.
Há um ano atrás, Fernando e sua família chegavam da fazenda quando um carro desgovernado os atingiu matando sua esposa e filha. Desde desse dia ele nunca mais voltou a sorrir. Sofri ao seu lado como sempre fizera quando algo ruim acontecia. Sofri como se fosse minha esposa e filha que tivessem morrido, mesmo nunca tendo casado.
A única pessoa a quem ele ainda conversava era comigo, mas já não existia alegria em sua conversa. Seus olhos se enchiam de lágrimas todas as vezes que se lembrava delas. Eu já não agüentava mais vê-lo desse jeito e com muito esforço e com o apoio de seus familiares e de nossos amigos, convencemos Fernando a fazer terapia. As coisas melhoraram um pouco. Ele já aceitava conversar com outras pessoas e sorria às vezes.
Estava tudo indo bem até que um dia me telefonaram dizendo que ele se atirara da janela do seu apartamento; que fica no último andar em um dos prédios mais altos da cidade. Seu rosto estava irreconhecível e ele só foi identificado pelos seus documentos e sua aliança.
Em seu testamento ele disse que deixava o apartamento e todas as suas coisas para mim. Nunca gostei deste prédio. Ele é muito antigo e já houve muito sofrimento aqui. Mas não podia negar tal presente vindo de alguém que significava muito para mim.
Desde de mudei-me para cá, tenho tido sonhos estranhos com um espelho antigo que encontrei no quarto do antigo casal; que agora é onde durmo. Esse espelho me impressionou desde a primeira vez que o vi pelo visual grotesco e assustador. Talvez fosse isso o motivo dos pesadelos.
O cenário de todos os sonhos era aquele apartamento. Via pessoas andando; desconhecidas para mim. Também ouvia conversas e o espelho sempre aparecia clareando o quarto com uma luz azul-mórbida vinda de dentro dele. Às vezes via rostos e escutava sussurros vindos de lá. Mesmo cético como sou, não conseguia me conter e acordava assustado, lavava o rosto e voltava a dormir. Geralmente esses pesadelos voltavam, mas depois eram substituídos por sonhos mais confortantes e alegres.
Assim como crescia o meu medo, a minha curiosidade de saber o que havia atrás daquele espelho crescia também. Aos poucos fui me acostumando com os pesadelos e parei de ter tanto medo. Agora só restava saciar minha curiosidade.
Numa noite quando tivera meu sono novamente invadido por tais horrores que se escondem no fundo de nosso inconsciente, descidi atravessar a luz mórbida que vinha do espelho. Senti uma força me puxar em uma velocidade incrível. Em seguida me encontrava dentre águas que não pareciam ter fundo. Mesmo não sendo anfíbio, conseguia respirar tão bem quanto um. Comecei a nadar para cima até finalmente ver uma luz mórbida semelhante a do espelho. Sai dentro de um tipo de piscina com bordas de pedra dentro de uma grande câmara. Havia quatro esculturas de belas mulheres nuas usando colares, pulseiras em forma de serpente e chapeis largos sem abas, semelhantes aos dos antigos faraós. Seus corpos eram belos, porém havia certos detalhes que insinuavam ossos saindo como suas colunas e sua caixa torácica que abaixo de seus belos e firmes seios exibiam-se espinhas tentando rasgar a pele. Todas eram feitas de um cristal verde-escuro. Havia uma em cada ponta da grande piscina. Cada uma delas segurava uma tocha com um fogo da mesma cor que vi no espelho e quando subi aqui; aquele azul-mórbido. Sai da piscina e fui explorar a câmara. Havia quatro colunas sustentando o forro que se encontrava oculto nas sombras acima. As colunas eram detalhadas com rostos grotescos de pessoas deformadas sofrendo em uma agonia eterna. As paredes eram ainda mais assustadoras. Também eram detalhadas com rostos de pessoas deformadas sofrendo, mas estas se confundiam e misturavam com outras formas demoníacas que não podem ser descritas com palavras. Algo como um pesadelo de H.R. Giger, com olhos, ossos e demônios surgindo em meio a pessoas nuas e em poses sensuais entre genitais - ou algo que lembre um - e corpos humanos nus com cabeças e membros de criaturas vindas da mente de um gênio louco.
Também vi uma passagem em forma de arco. De dentro dela uma profunda e misteriosa escuridão me intimidava e impedia-me de atravessar. Porém, vendo que não havia outro caminho, tive que superar meu medo e seguir em frente pela única saída aparente. Não sei se fiz a escolha certa, mas ao entrar naquela escuridão úmida onde não conseguia nem ver a ponta do meu nariz, senti que cruzava o limite da sanidade para sempre.
Segui por um corredor pedregoso e irregular em meio às trevas infinitas por um longo tempo. As pontas das pedras machucavam meus pés e estava preste a sufocar pelo ambiente abafado. Até que finalmente encontrei a saída. Já quase sem forças consegui atravessa-la e tomar um pouco de fôlego. Até o ar não era agradável e apesar de causar menos agonia que o corredor, ainda assim era sufocante.
A primeira coisa que vi foi um deserto coberto de brumas. O céu era escuro e sem nuvens e estrelas. Apenas um cinza-escuro. Deparei-me com uma escada que descia uns cem ou mais degraus. Eles pareciam serem feitos de ossos e havia chifres nos lados de cada degrau que deveriam ter cerca de uns 20 metros de largura. Olhei para cima e vi duas grandes estátuas, uma de cada lado, que deveriam ser feitas do mesmo material usado para fazer as quatro esculturas da câmara que deixara. Elas tinham o corpo de belas moças nuas e cabeças de lobos ferozes e empunhavam lanças afiadas. Vi também que à parte de cima da caverna onde estava era achatada - quase um cubo perfeito - e sua arquitetura lembrava as dos templos maias.
Vendo que não tinha outro caminho, decidi descer a escada que parecia não ter fim. Já bastante cansado e com as pernas doloridas, escorreguei nos últimos cinco ou seis degraus e rolei até cair com a cara na areia do deserto. Um cheiro horrível, semelhante à carniça infestava o ar me causando ânsia de vômito. Levantei-me e segui, sem direção, pelo deserto em meio às brumas que me cobriam e aumentava ainda mais o meu desespero.
Estava realmente muito cansado, mas o meu medo e a vontade de sair daquele lugar, planeta, dimensão, inferno, ou seja, lá o que for, era muito superior ao meu cansaço. Por isso continuei andando, mesmo sabendo que talvez nunca mais fosse voltar para minha casa. Rezava para que tudo não passasse de um horrível pesadelo e que pudesse acordar. Porém foram palavras e vão, pois realmente era um pesadelo, mas do tipo que não posso controlar e talvez não possa acordar.
Já estava para desistir e tentar de alguma forma me suicidar e acabar com aquilo tudo de uma vez. Até que vi uma luz azul. Às pressas, me aproximei mais e vi grandes colunas brilhando. Elas não tinham um tamanho certo, umas eram imensamente altas e outras eram bem mais baixas, como edifícios. Provavelmente deveria ser uma cidade. Como já disse, minha força de vontade era tão grande que criei forças para chegar até a possível cidade. Claro que pensei na forma de vida inteligente que poderia encontrar lá. Baseando-me pelas esculturas e desenhos que vi no templo, certamente não deveria ser das mais amigáveis. Mas essa era talvez minha única chance de voltar para casa.
Já a poucos metros da cidade, vi formas humanas caminhando para diversas direções. Pelo menos de longe não pareciam com monstros demoníacos e hostis, sedentos de sangue e carne fresca, que vieram à minha mente. Isso aumentou minhas esperanças por um curto período de tempo, pois logo percebi que as imensas colunas não se tratavam de prédios e sim de diamantes azuis. Em outras palavras, não era exatamente uma cidade. Mas ainda existia vida inteligente. Só me restava saber se eles estariam dispostos a ajudar.
Ao entrar na tal “cidade”, vi a forma de vida humanóide. Eram muito semelhantes aos humanos, porém uma sombra cobria seu corpo deixando apenas pequenos detalhes escapar. Detalhes como: braços, pernas e um pouco da cintura e em alguns dos ombros. Mas os rostos estavam totalmente cobertos pela escuridão. Elas se assustavam com seus reflexos produzidos pelos diamantes. Acho que eram os espectros das pessoas que se suicidaram.
Eu tentei pedir ajuda a elas, mas era ignorado. Nenhuma sequer me olhou. Era como se fosse invisível. Foi quando visualizei de longe um desses espectros sentado em uma pedra de diamante. Esse me pareceu bem familiar. Ao me aproximar confirmei minha teoria sobre esses seres vi Fernando. Mesmo com seu rosto e parte de seu corpo oculto, eu o reconheci. Corri até ele. Gritei por seu nome. Ele me olhou e por um tempo ficou me encarando com seu olhar, que não poderia ver, apenas imaginar pela forma como ele levantou a cabeça. Ajudei a refrescar sua mente me identificando. Demorou um pouco até ele me reconhecer dizendo de forma bem distorcida “Márcio?”, o meu nome. Ele se levantou e eu o abracei como se ele não estivesse realmente morto. Ele por outro lado não me abraçou. Apenas ficou parado, em pé. Disse novamente com sua voz distorcida que eu não deveria estar ali, pois não estava morto. Eu perguntei por que ele havia se suicidado. Sabia que seu sofrimento por ter perdido sua família era grande, mas a vida continua. Ele me olhou no rosto e disse que procurava por respostas e acabou encontrando apenas um deserto com outros sofredores que nem ele. Todos em busca das mesmas respostas que talvez nunca existam. Em seguida me encaminhou até o outro lado da cidade de diamantes. Chegamos até um diamante de cerca de três metros de altura e dois de largura e brilhava mais que os outros. O reflexo de Fernando produzido pelo diamante estava como ele era antes de se matar, com vida e sem aquele manto de sombra que cobria seu corpo. Ele sorria e dizia que deveria seguir e ir voltar a minha vida e nunca cometer o mesmo erro que ele cometeu. Despedi-me dele e atravessei o diamante. Estava voando em meio a um túnel de luzes azuis em alta velocidade. No fim dele tinha uma luz branca. Escutei uma voz feminina falando comigo. Ela me contava coisas que pareciam ser pessoais.
A luz ficava cada vez mais perto até que abri os olhos e me deparei com a luz de uma lâmpada no teto de um quarto branco. Pelos objetos que vi ao redor, deveria estar em um hospital. A voz feminina que não parava de falar vinha de uma enfermeira que estava de costas para mim. Ela tinha pele morena-clara e cabelos ondulados e compridos. Perguntei onde estava e ela se virou assustada como se eu fosse um cadáver voltando à vida. Logo em seguida ela chamou um médico e tudo foi explicado para mim.
Estive em coma por uns seis meses. Fui encontrado desacordado em meu apartamento por uns amigos e levado para lá.
Novamente tentaram convencer-me a abandonar aquele apartamento assombrado e neguei mais uma vez. Com fantasmas ou sem fantasmas ainda era um presente do meu melhor amigo e nunca deixaria outro morar lá. Às vezes presencio fenômenos estranhos, mas não me impressiono como antigamente. Talvez por agora conhecer o que é desconhecido para muitos. Moro lá até hoje, convivendo com aqueles que procuraram respostas do outro lado e só encontraram dor e sofrimento. Confesso que já pensei em me matar, mas quando me mudei para cá, aprendi que só há respostas na vida.

quarta-feira, novembro 01, 2006

O CAMINHO - Conto

Natália possui uma estranha habilidade que nem ela consegue compreender... Ela possui a capacidade de se comunhicar com os mortos. Porém, cansada de sofrer preconceito e ser chamada de louca, decide mudar sua vida e tentar se tornar uma pessoa normal. Mas uma grande ironia espera por ela na Fuga da Sanidade!

O CAMINHO Por Rodrigo Carvalho®

A vergonha ainda incomodava Natália quando ela se lembrava que suas amigas da faculdade a pegaram falando sozinha no banheiro. Duas tentaram rir, mas se controlaram e as outras três ficaram apenas impressionadas com o possível distúrbio mental de Natália. Na verdade, elas nunca foram realmente amigas, eram apenas colegas que estudavam juntas e às vezes trocavam umas palavras que não tinham ligação alguma com o estudo. Mas Natália sempre soube disso e se elas já não eram tão amigas, agora é que não serão mesmo, porque não demoraria muito para que toda a faculdade soubesse do ocorrido no banheiro. Diferente do que pode aparentar, Natália era muito conhecida pela faculdade, mas não tinha amigos, ela apenas se destacava pelo seu jeito estranho, ou como muitos a definiam: louca.
Faz apenas algumas horas que isso ocorreu e Natália refletia no ônibus. Ela sabia que apesar de acharem que estava falando sozinha, ela não estava. Natália conversava com o espírito de um homem que havia acabado de sofrer um acidente de carro e falecera na UTI. Ele não acreditava que havia morrido e estava muito confuso. Natália, um pouco assustada – afinal, havia pouco tempo que ela decidira aprimorar seu dom – conversou com ele da melhor maneira que pôde. Disse que havia sofrido uma fatalidade e que deveria seguir seu caminho para além da luz. O espírito então, aceitou sua atual condição e partiu para sempre, deixando uma mulher e três filhos pequenos.
Apesar de Natália ter descoberto esse dom aos 10 anos, ela sempre teve medo e por isso nunca aprimorou. Porém, um dia ela ajudou um cego a atravessar a rua e este disse “se você pode me conduzir pelo caminho certo, porque não faz isso com os espíritos atormentados que te procuram todas as noites?”. Natália não sabia como ele tinha conseguido essa informação, mas o que acabara de ouvir abriu sua mente para novos planos sobre sua mediunidade.
O cego, que aparentava ter uns 60 anos e se chamava Abraão, disse que também era médium e poderia ajudar-lhe a aprimorar sua habilidade. Natália refletiu bastante e decidiu aceitar a oferta e aos sábados, sempre durante à tarde, estudava com seu novo mentor. Ela aprendeu a temer o medo, a conversar com os espíritos e a vê-los em todos os lugares como se fossem pessoas comuns.
Infelizmente Abraão não pôde terminar de instruir sua aluna porque sofreu um derrame e veio a falecer poucos meses depois. Ele não era só um professor para Natália, mas também seu único amigo e a única pessoa que a entendia. Sem o velho Abraão, Natália começou e se afastar de seus estudos mediúnicos e tentou várias vezes fazer com que os espíritos a deixassem em paz, porque agora ela quer ser normal como todo mundo. Porém, essa habilidade vai acompanhá-la pelo resto da vida e ela sabe disso, sabe que por mais que os ignore, em todo lugar que ela irá um ou dois irão visitá-la pedindo para que lhes mostre o caminho que devem seguir. Mas não adianta, raramente ela pára para conversar com algum deles. E depois da cena no banheiro da faculdade, decide nunca mais conversar com ninguém que não seja de carne-e-osso.
Ao chegar em casa viu um senhor mendigo dentro do seu quarto dizendo que estava muito confuso e precisava saber para onde seguir agora. Ela ignorou-o, como havia decidido. Ignorou também uma mulher que havia morrido de câncer há poucos minutos e não aceitava sua nova condição. O mesmo foi para um rapaz que morreu de overdose, uma garota que foi atropelada, um homem que morreu de aids e até um garotinho que estava no banheiro. Ele havia sido espancado até a morte pelo padrasto bêbado, cujo único motivo era ciúmes da mãe. Havia até assistido a matéria no jornal local. Esse ela ainda teve pena, mas virou o rosto logo em seguida.
Claro que já estava bastante incomodada com todos aqueles espíritos por perto e com sua paciência passando dos limites, Natália gritou com eles dizendo “Vocês estão mortos! Deixem-me viver em paz e sumam da minha casa!”. Com a eficiência de sua atitude, Natália diz a si mesma que deveria ter agido assim antes, porque logo em seguida todos foram embora.
Os dias se passaram e poucos espíritos ainda a procuravam. Ela sabia que se ignorasse todos, logo parariam de procurá-la completamente. E foi o que houve. Quando Natália acordou para ir à faculdade, não viu ninguém, nem nas ruas e nem na faculdade. Só aquelas pessoas vivas de sempre. Natália quase não acreditou, mas com o decorrer do dia viu que sua suposição estava certa: todos os espíritos haviam decidido deixá-la em paz.
No dia seguinte ela acordou e nenhum espírito como no dia anterior. Os tempos foram passando e ela já se considerava uma pessoa normal. Estava até perdendo a fama de louca na faculdade e se tornou uma pessoa mais sociável fazendo algumas amizades. Mais tarde já era convidada para festas e recebera várias propostas de namoro causando inveja em algumas garotas. Finalmente conseguiu a vida que sempre sonhou.
Foi convidada para o aniversário de um amigo numa bela casa no centro da cidade. Ela não poderia faltar porque toda a turma estaria lá. Estava louca para conhecer pessoalmente o primo do aniversariante, um rapaz que havia chamado sua atenção num churrasco de domingo na casa desse mesmo amigo. Ela pensava nele quando os pêlos de seu corpo se arrepiaram e algum ponto desconhecido do seu cérebro percebeu a presença de outra pessoa em casa. Não era vivo, ela sabia e a ao olhar para trás viu aquele mesmo garotinho que havia sido assassinado encostado na porta fazendo um sinal para que ela se aproximasse. Ela virou o rosto ignorando-o e ao olhar novamente para a porta ele ainda continuava na mesma posição. Ela, com raiva disse “Sinto muito pela sua morte, mas saiba que não posso fazer mais nada. Você tem que aprender a encontrar seu próprio caminho e me deixar em paz porque agora sou uma pessoa normal e nenhum fantasma vai estragar isso. Agora vá embora e não me procure mais porque nunca vou te ajudar entendeu?”. Ao dizer isso o garotinho desapareceu deixando apenas a lembrança daqueles olhos tristes que comoviam Natália, mesmo ela querendo demonstrar o contrário. Em seguida, ela terminou de se aprontar e foi para a festa.
A noite foi boa. Conheceu o rapaz que havia se interessado, fez novas amizades, bebeu muito e riu com seus novos amigos. Porém já se passavam das cinco da manhã e ela se lembrou que tem uma casa para morar. Pegou uma carona com uns amigos totalmente bêbados. Estavam em alta velocidade e o motorista não prestou a atenção no sinal vermelho e não viu quando um ônibus entrou na porta do carona com um impacto de 60 km/h. Todos que estavam no carro ficaram gravemente feridos e Natália, que estava no banco do passageiro, faleceu nos braços de um para-médico.
A última coisa que viu foi o rosto do para-médico tentando reanimá-la. Depois ela perdeu a audição e tudo ficou escuro. Já não sentia mais seu corpo e após alguns segundos se via novamente em pé a alguns metros do local do acidente. Viu seu corpo e os seus amigos feridos sendo levados pelas ambulâncias.“Não pode ser verdade! Eu só tenho 22 anos! Tenho planos para o futuro! Quero me formar, casar, ter filhos. Não, meu Deus, não...”. O garoto voltou a aparecer na frente dela. Balançou a cabeça num gesto negativo e disse “Tentei te avisar, mais você me ignorou...Sinto muito.”, em seguida uma luz surgiu atrás de seu corpo. Ao olhar para a luz disse “Finalmente encontrei!”. Ele atravessa a luz e desaparece. Natália tentou alcançá-lo dizendo apavorada. “Não, espere! Para onde eu vou agora? Como encontro meu caminho? O que eu vou fazer? Me ajude, por favor!”. Natália então se tornou um espírito perdido no mundo dos vivos sem saber para onde ir e sem ter ninguém que possa auxiliá-la a encontrar seu caminho.